Eduardo Matarazzo Suplicy tem 77 anos e é um dos políticos mais conhecidos do País. Foi eleito para cargo público pela primeira vez em 1978, quando recebeu 78 mil votos e tornou-se deputado estadual pelo MDB. Tinha como lema ser um candidato que iria lutar pela democratização do País, por eleições diretas para prefeito, governador e presidente, por respeito aos direitos humanos e por procedimentos éticos na vida política.
No segundo semestre de 1979, os dois partidos que existiam à época, MDB e Arena, foram extintos e ele foi convidado para ser um dos cofundadores do PT. Tornou-se um dos símbolos da legenda. Foi eleito deputado federal em 1982. Empenhou-se na luta pelas “Diretas-Já” e para que houvesse transparência e correção no trato da coisa pública. Disputou, sem êxito, as eleições para prefeito de São Paulo e a governador, quando foram eleitos, respectivamente, Jânio Quadros e Orestes Quércia. Em 88, foi eleito vereador na Capital com 201 mil votos, quase cinco vezes o obtido pelo segundo colocado.
Em 90, foi eleito senador com 4,2 milhões de votos e exerceu três mandatos consecutivos de oito anos. Em 2014, afetado segundo ele “pelo tsunami que passou sobre o PT”, não conseguiu se reeleger mesmo tendo recebido 6,6 milhões de votos. Dois anos depois, disputou as eleições para vereador e recebeu 301.446 votos; foi eleito com a maior votação havida para um vereador na história do Brasil.
Suplicy disputa novamente uma vaga no Senado Federal e lidera as pesquisas de intenção de voto. Na sexta-feira, ele veio a Franca fazer campanha e falou com o Comércio.
Como começou a relação do senhor com Franca?
Tenho uma relação de 40 anos com Franca. Quando fui candidato a deputado estadual em 1978, me lembro de ter visitado a cidade diversas vezes. Tinha um médico aqui, chamado doutor Aníbal, que se entusiasmou fortemente pela minha candidatura. Ele chegou a me visitar em São Paulo e se colocou à disposição para me ajudar. Vim à cidade algumas vezes com ele. Fui eleito e retornei à cidade várias vezes durante o exercício do mandato. Desde então, sempre estive em Franca.
O que motiva o senhor a disputar uma eleição tão difícil como a de senador aos 77 anos?
Tenho uma vontade imensa de continuar a batalha para a construção de um Brasil justo e civilizado e colocar em prática aqueles instrumentos de política econômica e social que possam elevar o grau de Justiça na sociedade brasileira. Luto pela aplicação dos princípios de igual liberdade e oportunidades. Qualquer diferença socioeconômica na sociedade só se justifica se for em benefício dos que menos têm e de maneira a prover igualdade de oportunidades a todos.
Quais ações desenvolveu com esse propósito?
Apresentei em abril de 1991, o primeiro projeto para instituir o programa de garantia de renda mínima às famílias carentes desde que as crianças frequentassem a escola. Foi o primeiro passo para um dia chegarmos à renda básica universal incondicional. Em 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso deu o sinal verde para que o Congresso Nacional votasse a lei prevendo que a União financiasse os municípios que adotassem os programas, que foram denominados Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e o Auxílio-Gás. No início do governo Lula, foi implantado o Cartão Alimentação. Em outubro de 2003, Lula resolveu unificar e racionalizar estes quatro programas no Bolsa Família, que passou a atender, no pico, 14,2 milhões de famílias.
Melhor do que oferecer este auxílio será um dia instituir a renda básica de cidadania universal incondicional para toda a população. Em 2001, apresentei projeto prevendo a implantação por etapas, começando pelos mais necessitados. A lei foi aprovada e sancionada em 2004. Quero voltar ao Senado para concluir a minha tarefa ainda em vida e persuadir o presidente que está na hora de instituir para valer o direito de todas as pessoas de participar da riqueza comum de nossa nação como um direito à cidadania.
Qual o compromisso do senhor com o setor calçadista de Franca, que foi fortemente atingido pela crise?
Franca tem uma tradição excepcional na produção de calçados. Eleito senador, quero voltar à cidade e ter um diálogo com os empresários e trabalhadores para ouvir as necessidades. É um problema tão sério que convém eu me aprofundar no conhecimento de que caminhos alternativos teriam que ser adotados.
O TSE barrou a candidatura de Lula à Presidência da República e o PT confirmou o nome de Fernando Haddad como o candidato. Como o senhor avalia a decisão?
Por tudo o que conheci do presidente Lula, acho que teria sido adequado que o Supremo Tribunal Federal tivesse permitido a ele comprovar que não cometeu qualquer crime, muito menos de enriquecimento ilícito. O juiz Sérgio Moro condenou Lula por pressuposições sem qualquer comprovação ou documento de que aquele triplex tivesse pertencido a ele.
O senhor coloca a mão no fogo por Lula?
Sempre que conversei com o Lula, desde o começo do PT, ele me dizia: ‘para nós, Eduardo, a questão ética é fundamental’. Não tenho conhecimento, embora tenha convivido com o Lula por 42 anos, de que ele tenha cometido atos de enriquecimento ilícito. Acho que é direito da Justiça e do Ministério Público querer averiguar e comprovar, mas, até agora, as provas que foram colocadas não são para valer. Eu tinha a expectativa de que o Lula pudesse ser julgado e inocentado de maneira a poder ser candidato. Não tendo havido esta possibilidade, estou de acordo com o Lula de que o Fernando Haddad constitui um excelente valor. Ele foi o melhor ministro da Educação já havido na história do Brasil. Convivi bastante com ele e tenho a convicção de que é uma pessoa extremamente correta e que tem capacidade extraordinária. Foi o coordenador do programa de governo de Lula e teve expressivo crescimento nas pesquisas, tão logo o nome foi oficializado.
Quem deverá ser o adversário de Haddad caso ele chegue ao segundo turno?
Há candidatos fortes que merecem todo o respeito, a começar pelo próprio Jair Bolsonaro. Sou solidário a ele. Acho um acontecimento trágico, totalmente condenável, que alguém tenha tentado matá-lo com uma facada. Espero que ele possa se recuperar e estar bem logo para, inclusive, participar dos debates no final da campanha. Ele é um candidato forte, mas acredito que os demais também possam crescer.
Em 2009, o senhor causou polêmica ao mostrar um cartão vermelho para José Sarney e o expulsou simbolicamente da presidência do Senado. Para quem o senhor mostraria o cartão vermelho hoje?
Na vida política, eu acho que mostraria para o Jair Bolsonaro. Até gostaria de ter um debate com ele. Ele tem insistido, não sei se é de brincadeira, em defender a pena de morte e a redução da maioridade penal. Por algumas vezes, faz gestos simulando que está segurando uma metralhadora e chegou a dizer que iria subir num helicóptero e metralhar a Rocinha. Então eu coloco o cartão vermelho para ele. O cartão vermelho para o Bolsonaro é no sentido de poder transmitir algo que possa ser um ensinamento. Da minha parte, sou discípulo de Mahatma Gandhi e sigo as recomendações de Martin Luther King Jr, de sempre procurar confrontar a força física com a força da alma, de nunca estar tomando do cálice do veneno, do ódio, da guerra e da vingança. Devemos conquistar as coisas por meio da não violência.
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