Volto ao Fernando Pessoa para falar sobre o prato preferido dele. Mas não só. A liturgia do fracasso econômico perseguiu o escritor mesmo quando ele teve nas mãos algo mundialmente comerciável, quando trabalhou na Empresa Nacional de Publicidade.
Pessoa não honrou a vocação lusitana do bacalhau, e, a não ser para ironizar o então primeiro-ministro Antônio Salazar, citando um tal “bacalhau a Salazar”, não se encontra em sua obra qualquer outra citação do peixe que foi, e é ainda, símbolo de Portugal. Ao avesso disso, preferia a dobrada, ou dobradinha, como nós aqui a chamamos, que vem a ser o bucho dos animais, principalmente o boi, cozido em pequenos pedaços. Pessoa a preferia à moda do Porto. No Brasil, a dobradinha é marcadamente um prato nordestino, especificamente do sertão setentrional, onde a população é marcada pela pobreza, porém, também pela liberdade na caatinga. Utilizam como complementação da alimentação a caça de pequenos animais, não dispensam as vísceras e produzem com elas alguns pratos deliciosos.
Mas, como gostava o poeta (é quase como a famosa sopa de pedra com inúmeros ingredientes, que ao final se descarta a pedra, mantendo a humildade do comensal), era: dobradinha de vitelo, 1 mão de vitelo, chouriço, toucinho entremeado, presunto, carne de cabeça de porco, frango, feijão-manteiga, cenoura, cebola, azeite e louro. A dobradinha é lavada com sal e limão, depois cozida e reservada. Todas as outras carnes devem ser escaldadas e cozidas juntas. Só ao final se mistura tudo com muito azeite e arroz branco.
Tanto amava tal prato que lhe dedicou um poema, de sentido dúbio, há quem diga, homossexual:
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a Rua.
...se eu pedi amor, porque é que me trouxeram Dobrada à moda do Porto fria?
Então, ficam o fracasso e a sobremesa, para a próxima semana.
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