Ela dava vozes aos sons do mundo.
Poder, dinheiro e sexo.
Por dentro um vazio profundo,
Um quase nada, diante de um quase tudo.
Sua sina era se reinventar.
Comprou o corpo, os cílios, os cabelos
A cor da íris, o sorriso e até o espelho.
Fechava os braços para os verdadeiros abraços
E abria os ouvidos para os ecos de elogios.
Um quase nada, diante de um quase tudo.
Comprava calcinhas, sutiãs,
A ausência de rugas,
Os planos do amanhã.
Conquistou tudo o que queria,
O interesse, a vaidade, a maestria.
Era outono e as folhas caíam
Sobre um pelado chão.
Suas mãos trêmulas buscaram
Um lugar de esteio,
Junto aos pés de uma lareira, pela manhã
Um cigarro.
Coisa ruim também é ponto de partida.
A fumaça ziguezagueava pelas narinas
E denunciava que ela existia.
Seu olhar atônito se fez cansado
Diante daquela busca incessante
Por um quase nada.
Puxou o ar de um lado
Soltou-o para o outro,
Virou-se para cima,
Depois para baixo.
Silenciou.
Um som abafado há anos no peito
Apareceu feito bicho acuado.
Era tempo de olhar para dentro.
Um quase tudo.
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