O poeta e o comer


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Nem sei quantos heterônimos construiu Fernando Pessoa, parece que vez ou outra descobrem um novo, quando não, dezenas. Só sei que a Alberto Caeiro e Álvaro de Campos estão intimamente comigo. Nas encruzilhadas da minha vida, acenaram para mim – aquele, minha bíblia, porque é na natureza que me encontro com Deus, esse, me insta a caminhar porque pensar tem de ser bom, não pode castrar. Eu justamente não sou de deixar a roupa arrumada esperando por uma mala que jamais se afivela. 
 
Não sou (absolutamente) especialista da poesia dele ou de qualquer outra, mas notei, talvez, algo. Nem Fernando Pessoa, nem seus heterônimos gostavam de comer. Há inúmeros estudos sobre os seus heterônimos, há teses mediúnicas sobre a diferença de personalidade deles, especula-se que ninguém em sã consciência pudesse se transfigurar em tantos, como um ator a interpretar tantos papéis. Por isso, o que ninguém fez, só o além-mundo explica.
 
O biógrafo José Paulo Cavalcanti nos conta que ele se alimentava, grosso modo, de vinho e café. A comida pouco ou nada lhe interessava, era secundária ou circunstancial, e transpôs isso para sua obra. Acho que não houve heterônimo que fosse glutão ou que tirasse, da comida, prazer.
 
Fernando Pessoa gostava de comida simples, até porque nunca teve dinheiro para se regalar em sofisticação. Entre os seus pratos preferidos estava o caldo verde, aquela sopa de batata que leva tanta couve picada que acaba se tornando um pouco verde. Pode-se também bater a couve no liquidificador, daí a sopa fica bem verdinha mesmo.
 
Apreciava também uma carne chamada Bife à Jansen. Sendo Jansen uma antiga cervejaria de Lisboa. A receita desse restaurante parece ter se perdido, mas com bastante segurança pode-se dizer que era assim: tempera-se a carne com sal e pimenta do reino, bifes altos e pouco batidos. Numa frigideira de barro, coloca-se banha de porco e frite presunto demolhado, isso mesmo, em Portugal eles deixam o presunto de molho para algumas receitas - esse é o caso aqui. Junta-se o alho esmagado, louro fresco e deixe dourar, dispensando-os em seguida. Nessa gordura frite os bifes e batatas cozidas com casca e deixe tudo alourar em fogo médio, não há opção malpassado. Por último, retira-se tudo da frigideira e faz-se um molho com manteiga na “sujeira” das frituras, deixando-se apurar bem. Sem dúvida, bastante saboroso.
 
Aliás, é preciso dizer que embora não gostasse muito de comer, Pessoa adorava os cafés e restaurantes, era assíduo frequentador de alguns, mas para ver, da penumbra solitária de suas mesas, o outro. 

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