Moradores de rua tomam conta de praças e vias públicas


| Tempo de leitura: 3 min
Casal conversa enquanto homem dorme sob árvore no canteiro central de avenida na Vila Gosuen: há colchões e até sofá
Casal conversa enquanto homem dorme sob árvore no canteiro central de avenida na Vila Gosuen: há colchões e até sofá
Eram 16h30 da última quinta-feira, na Praça dos Angicos, no Jardim Francano. Em um dos gramados, uma mulher aparentando uns 40 anos dormia em um colchão estendido na grama. Ao lado dela, contava-se pelo menos outros seis colchões espalhados. Um pouco mais para frente, em uma cozinha improvisada com tijolos no meio da praça, um homem cozinhava feijão com pele de porco para a janta dele e dos outros oito moradores de rua que vivem no local. 
 
Todos são francanos, têm família e casa para morar. Mas preferem viver ali. “Aqui ninguém enche meu saco quando quero beber. Posso fazer o que quiser que ninguém me incomoda. Nem a polícia vem aqui”, conta Celso, 42, o cozinheiro.
 
Ele diz que sua família mora no bairro Miramontes. Tem dois filhos e era sapateiro. “Depois que machuquei a perna, larguei mão de trabalhar. Agora eu recebo ajuda do governo. Nem pedir preciso, para poder beber.”
 
Celso diz que morar na praça é bom. “Aqui não tem ninguém enchendo. Somos uma grande família. A gente bebe e curte juntos. Ficamos aqui à toa. As pessoas dão comida. E nossa bebida, a gente dá um jeito de comprar. Por que vou sair?”
 
Como Celso, dezenas de outras pessoas vivem pelas ruas e moram em barracos improvisados em praças, pontilhões e até ao lado da Catedral. Não há um número oficial, mas estima-se que sejam mais de 300 pessoas. Um número que não para de crescer. No ano passado, Ministério Público e Prefeitura chegaram a assinar um acordo para tentar diminuir a população que vive nas ruas. Mas sem sucesso (leia na Página 17A). 
 
Por todos os lados
O Comércio visitou por dois dias da última semana diversos pontos da cidade e, em todas as regiões, há praças, pontilhões, ruas ou calçadas ocupadas. 
 
Alvo de polêmica no ano passado, a praça do Jardim Santa Adélia voltou a ser ocupada. Ali seis moradores de rua montaram barracas improvisadas, com abrigo até para cachorros. 
 
Um dos comerciantes que tem seu estabelecimento próximo à praça reclama. “É complicado. A gente sente um pouco de pena. Mas, ao mesmo tempo, temos medo. Eles, quando estão sob o efeito do álcool ou das drogas, ficam muito agressivos. Atacam e xingam nossos clientes, importunam as pessoas. Já tentei um acordo de oferecer comida para que eles nos deixassem em paz. Não funcionou.”
 
Um jardineiro de 44 anos, que há 30 mora na Vila Imperador, próximo ao local, também reclama. “Eles furtam casas e carros para conseguir dinheiro. Eu mesmo já tive a bateria do meu carro furtada duas vezes. Eu tenho pena quando vejo eles na rua no frio, mas também não acho certo saírem ameaçando e assaltando as pessoas.”
 
Nem a Catedral Nossa Senhora da Conceição escapa. Ao lado da igreja, quatro moradores de rua estão instalados. “É muito triste ver eles ali. Nunca me ameaçaram nem agrediram. Mas eles incomodam muita gente pedindo”, disse uma senhora de 59 anos, que frequenta a igreja (leia na Página 17A). 
 
Ainda na região central, os pontilhões das ruas General Telles e Voluntários da Franca se transformaram em moradias improvisadas. Na General Telles, os moradores de rua construíram um barraco de madeira. Até vasos com plantas para decorar a entrada colocaram. 
 
Longe do Centro, no Jardim Primavera, os mendigos aproveitaram a estrutura de uma passarela sobre a rodovia Ronan Rocha, para também montar barracas nos dois lados da via. 
 
Com sofás, tábuas e colchões, os moradores de rua também ocupam trechos da avenida William Azzuz, na Vila Gosuen. “Moro ali nos prédio do Conjunto Dom Pedro e tenho muito medo, porque eles são muito agressivos. Antes, até me arriscava de passar ali à noite, agora não tenho coragem. Só saio se for acompanhada”, disse a vendedora Ana Paula da Silveira, 26.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários