Marcos Antônio Pereira do Amaral, 50, se define como um apaixonado pela educação pública. Estudou e construiu carreira na rede estadual de ensino. Foi aprovado em concurso para professor em Itaquaquecetuba, em 1993. Em 2004, tornou-se diretor no Jardim Ângela, em São Paulo. No mesmo ano, decidiu pedir transferência para Franca, cidade que jamais havia visitado.
Transformou escolas, se casou e decidiu entrar para a política. Tornou-se suplente de vereador pelo PSDB e assumiu uma cadeira na Câmara por cinco meses, em 2017. Na terça-feira, 21, tomaria posse novamente, mas teve de renunciar à convocação. No mesmo dia, foi nomeado pelo Estado para assumir a Diretoria Regional de Ensino, que abrange Franca e mais nove cidades. A unidade controla 67 escolas estaduais e um exército de 40 mil alunos. Também supervisiona as escolas municipais e particulares. Conheça a história de Diretor Marcos.
Como teve início a relação do senhor com Franca?
Eu sou de Osvaldo Cruz, na região de Presidente Prudente. O normal seria eu trabalhar mais perto de minha cidade, mas havia perdido minha mãe há pouco tempo e resolvi vir para Franca. Antes, nunca havia passado de Ribeirão Preto. Como havia uma vaga aqui na época, eu fiz a escolha. Cheguei em dezembro de 2004.
Eu vim como diretor do Cefam, que estava fechando. A dirigente era a professora Ivani e ela me disse: “Dizem que você faz um trabalho espetacular e eu quero por à prova. Tenho uma escola que está com sérios problemas, desacreditada, nome pejorativo de ‘Mirandão’, ninguém quer estudar lá e quero ver sua capacidade de levantar a escola”.
Eu aceitei o desafio, agradeço muito a comunidade da Ponte Preta, Santa Maria do Carmo, os pais e professores que abraçaram este projeto. Transformamos o “Mirandão” em escola José dos Reis Miranda, com filas de alunos querendo estudar lá e com índices de Ideb e Saresp altíssimos. Isso é uma honra e deu credibilidade ao meu nome enquanto gestor em Franca.
Como define o sentimento ao ser nomeado para dirigente no mesmo dia em que tomaria posse como vereador?
Foi um momento ímpar em minha vida. Eu me preparei a vida inteira, desde quando ingressei no magistério, para galgar postos. Eu trabalho muito, várias horas por dia e respiro educação. Procuro aprender a cada dia mais, pois ninguém está pronto nunca. Tive que tomar uma decisão e priorizei minha carreira.
Faço uma ressalva: gosto da política, acho que devemos estar engajados na política. Acredito que eu posso contribuir muito mais com a educação, sendo dirigente, do que ser vereador. É um momento de contribuição com a educação.
O que significa para o senhor o ato de ensinar?
Transformar vidas. O nosso País não vai mudar se não for pela educação, que, às vezes, fica tão renegada. O professor é um agente transformador na vida do aluno. Eu encaro como transformar vidas do aluno, dos colegas e da comunidade. Eu não acredito em educação que não trabalhe em parceria com a família. A escola tem que se abrir à comunidade. Em agosto de 2008, quando o ‘Miranda’ estourou em recordes de aprovação, eu disse ao Comércio que a escola é do povo, foi o título da reportagem. Eu acredito firmemente nisso.
Como avalia os casos de indisciplina e de desrespeito dos alunos com os professores na sala de aula?
A escola não é uma ilha. O que acontece na sociedade vai refletir lá dentro. Temos uma sociedade violenta, que ainda precisa trabalhar muito o respeito pelo direito e pelo dever. Não dá para separar e pensar que o aluno será outro quando passar do portão para dentro da escola. Ele é o mesmo que vem de uma realidade social difícil.
No nosso tempo, a escola era elitista, não era para todos. Hoje, a escola é para todos e com inclusão. Os desafios são imensos, pois reúne crianças de várias realidades e você precisa formar uma orquestra e ter sucesso. Não é fácil.
Como conseguir fazer a orquestra ter sucesso?
O professor é um maestro muito bom, mas o sucesso só é alcançado com o trabalho em equipe. O professor precisa da coordenação pedagógica, do apoio da diretoria, de uma gestão que trabalhe em conjunto. A rede é imensa e problemas vão ter, mas faz coisas maravilhosas.
Qual será a marca do Diretor Marcos na diretoria regional?
A marca será de um dirigente muito presente nas escolas. Não indo lá para dar broncas, mas participando e conhecendo as características de cada uma. Pretendo ser um incentivador, sendo mais um na equipe, para auxiliar o sucesso da escola. Sou hiperativo, não paro, gosto de andar. Tenho uma jornada de 11, 12 horas por dia, e não vou mudar. Vou trabalhar muito. Acho que é preciso ouvir o professor.
Vou ser o milagre, vou resolver todos os problemas? Claro que não. Dependemos de políticas que estão sendo implementadas e de diversos fatores. Mas quero ser um instrumento para procurar amenizar, fazer a diferença. Tenho histórico de trabalho e acho que posso ajudar muito as escolas. Estou dirigente, eu sou diretor. O objetivo é colaborar com o trabalho e meu gabinete estará com as portas abertas.
Por que decidiu fazer carreira na rede pública?
Tive convites para atuar em outras redes, mas eu acredito e sou um apaixonado pela educação pública. Fui um aluno pobre, de uma mãe com cinco filhos, viúva e que sempre me dizia: “Não tenho nada para deixar para vocês, só o sol e a lua. Vocês precisam estudar muito, ter caráter e honestidade, pois o nome da gente vale muito”.
Acredito que eu construí minha carreira com o nome, trabalhando, sendo honesto, transparente e correto.
Sou um funcionário público, não tenho milhões para investir em campanha eleitoral. Recebi 2.406 votos, em 2012, e 1.700, em 2016. Isso é reflexo do meu trabalho. Foram os pais e colegas de trabalho que votaram em mim.
O núcleo de Franca do Grupo Mulheres do Brasil divulgou comunicado afirmando ter se surpreendido com a demissão de Maria Luiza Nery, que ocupava o cargo de Diretora Regional, e disse esperar que a mudança não tenha sido motivada por questões políticas. Foi uma referência à suposta intervenção do deputado Roberto Engler (PSB). O que o senhor tem a dizer a respeito?
Não houve interferência nenhuma do Roberto Engler. Estão confundindo uma amizade de muitos anos com a minha designação. Nos últimos dois meses, a Secretaria de Educação trocou de 15 a 20 dirigentes no Estado, não é só em Franca. A nova diretora de Marília, inclusive, é aqui da Escola “Pedro Nunes Rocha”.
Quando a professora Ivani (antiga dirigente) se aposentou em 2015, fomos convidados, um supervisor, que era o professor Hugo, e três diretores - a Maria Luiza, o Sebastião Donizete e eu - para irmos a São Paulo em uma banca entrevistadora para sermos os próximos dirigentes. Éramos em quatro para uma vaga, e a Maria Luiza foi a escolhida.
Os professores Hugo e Sebastião se aposentaram. Ficamos eu e a Maria Luiza daquela sabatina. Temos uma folha de serviços prestados e participamos juntos de um processo de escolha. Não houve problemas.
O Roberto Engler é um deputado que sempre se preocupou com a educação e precisa ter o trabalho respeitado. Estamos em uma democracia e respeito a opinião do Grupo Mulheres do Brasil. A Diretoria de Ensino, sob a minha direção, continuará aberta às Mulheres do Brasil. Queremos dar sequência aos projetos que são maravilhosos.
Com a experiência de quem já foi vereador e é dirigente regional de ensino, qual a sua opinião sobre a forma ideal de escolha dos diretores da rede municipal, que foram exonerados por determinação da Justiça?
Há vários tipos de escolha em diversos países. Eu ainda defendo o concurso, é a melhor forma. Você estuda e passa. A escolha por lista tríplice, por mais isenta que seja, sempre vai gerar comentários. É o momento de Franca tomar uma decisão sobre qual caminho seguir. Seja qual for a decisão, precisa estar respaldada pelo Conselho Municipal de Educação, que representa a sociedade. Não é uma decisão de uma ou duas pessoas. É preciso ouvir e conversar muito.
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