A foto é de vitrine de loja chique de eletro-domésticos em Londres, tirada na semana do casamento do príncipe Harry com Meghan Markle união que, de um lado materializava em pleno século XXI doce romance da plebéia que se tornava princesa, e de outro se revelaria poucas semanas mais tarde, desconfortável pesadelo para a família real. Acontece que na vida dos reis, de sangue azul, ocorre o mesmo que na vida dos mortais de sangue vermelho. Os noivos ao se casarem, fazem-no também com a família dos respectivos parceiros e, muitas vezes, o futuro se faz sombrio para ambas as partes, por causa dessas famílias. Naquela ensolarada manhã a risonha e feliz noiva quebrava alguns tabus do ponto de vista da real tradição britânica. Afro-descendente, divorciada, americana, três requisitos nada alvissareiros para a realeza. Mas perfeitamente contornáveis. Séculos antes, a rainha Charlotte de Mecklemburgo-Strelitz, esposa do rei Charles III, pais de quinze filhos, entre eles o rei Charles IV, também era negra e seu reinado deixou saudades. Particularmente interessada nas artes, foi aluna e amiga de Johann Christian Bach, de Wolfgang Amadeus Mozart e de seu interesse pela botânica nasceram os Kew Gardens. Edward VIII e Wallis Simpson, em 1936, protagonizaram o que foi chamado “Romance do século”. Prestes a ser coroado rei, Edward abdica do trono porque sua amada era americana e, pior, divorciada. Pecados demais para a coroa inglesa da época. O príncipe Harry é o sexto na linha de sucessão da coroa inglesa, mas nunca se sabe. Naquela manhã, em Windsor, a linda Meghan quebrava de vez o protocolo, ao entrar sozinha na igreja, para encontrar seu futuro marido no altar. Filha de pais divorciados, apenas a mãe foi convidada. E convidada de honra. O pai, disseram, estava doente e a família que constituiu após o divorcio, parece, não foi chamada. Atualmente, ao que tudo indica, o protocolo real inglês prevalece: ninguém do lado de dentro dos muros do palácio diz alguma coisa. Os despeitados, do lado de fora, berram seu ódio e tentam tirar algum proveito financeiro do escândalo. E os demais espectadores, ingleses ou não ingleses, se deliciam com a proverbial sutileza, criatividade e sagacidade do humor britânico, como o que transparece nessa foto.
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