'Tinha certeza que, se o denunciasse, ele me mataria'


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"Era um conto de fadas. Passamos a namorar a distância após nos conhecermos em um curso que fui fazer fora do Estado
“Era um conto de fadas. Passamos a namorar a distância após nos conhecermos em um curso que fui fazer fora do Estado e ele sempre foi carinho, gentil, educado e ‘protetor’. A primeira agressão veio com quatro meses de namoro, em nosso primeiro Réveillon juntos. Eu estava com meus filhos na cidade dele. Dois amigos me mandaram áudios desejando feliz ano novo à 1h30. Ele viu meu celular e disse que uma mulher com dignidade, caráter e criação não recebia ‘mensagem de macho à essa hora, que isso era coisa de vagabunda’.
 
De repente, me deu um tapa na cara e disse que era para eu aprender, que era pouco para eu acordar para a vida e rever minhas atitudes.
 
Para alguns homens, a agressão vem como ato corretivo. Ele era assim: machista, ciumento, possessivo. Exigia, de certa forma, obediência. Como em muitos casos, a impressão que eu passava era de vida de princesa. Nossas redes sociais eram de dar inveja a qualquer casal, o amor demonstrado ali era admirado por muitos, nunca, ninguém, jamais, imaginaria que existia agressão física e psicológica olhando nossas postagens.
 
Vieram outras agressões ao longo de dois anos de relacionamento. A cada agressão ele dizia que eram atos corretivos. Eu acreditava que o meu amor iria transformá-lo, que tudo poderia melhorar se eu mostrasse equilíbrio, paz e respeito. Enquanto isso, minha família não sabia de nada.
 
Eu pensei várias vezes em denunciá-lo, mas sempre voltava atrás por medo. A última agressão aconteceu após ele ver uma mensagem do meu primo me pedindo informação de um produto que eu conhecia. Ele segurou minha nuca e bateu muito forte em meu rosto. Na hora a dor no meu ouvido direito foi infinita, fiquei surda na hora, tanto que até hoje não ouço direito desse lado. Eu gritei alto e meu filho mais velho, na época com 15 anos, ouviu. Ao chegar, o agressor inventou que eu havia batido em meu próprio rosto, pois ‘estava nervosa’. 
 
Depois dessa vez, ele disse que mudaria, que meu amor faria dele um homem equilibrado e calmo. Percebi que estava em um relacionamento abusivo quando me vi desistindo de viver e cansada de trabalhar.
 
Dias depois dessa última agressão, abri o jogo com meu irmão. Pela primeira vez eu o enfrentei. Com calma, apenas conversando e me defendendo. Ele disse que não era obrigado a conviver todo os dias com consequências dos meus erros. Sim, ele se referiu aos meus dois filhos. Ainda ressaltou que não poderia ser aceitos porque eram de pais diferentes e que fossem três filhos, ele teria nojo de mim.
 
Em determinado momento, ele começou a abrir o gás e procurava o isqueiro para atear fogo na cozinha, começou a querer quebrar as coisas, aí eu disse em voz baixa para não destruir a casa que pertence aos meus filhos. Também falei ‘pegue suas coisas e vá embora. Não aceito mais isso e não mereço’.
 
No final, ele foi tirado da minha casa com a ajuda de uma pessoa da família dele e do meu irmão. Nunca mais o vi.
 
Hoje em dia, estou em paz. Quando vejo alguém falando que a mulher aceita isso porque quer, só penso que ela não deve ser julgada. Não sabemos o que a vítima está passando ou ouvindo. Não sabemos se ela está dando a vida dela para proteger a família, ou os filhos. No lugar das críticas, abrace em silêncio, porque falação já tem demais. Para tentar ajudar mulheres nessa situação, fiz um curso de coaching e já estou apta para atender. Quero prestar atendimento social para essas vítimas, para fortalecer autoestima, confiança e amor próprio delas para que assim se sintam capazes de refazer suas vidas, com dignidade e plenitude.”
 
Estatísticas
A designer de sobrancelhas e micropigmentadora Michelle Ferreira (que deu o depoimento acima) é uma das várias mulheres que foram vítimas de violência doméstica em Franca. Diariamente, diversos casos são registrados na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) e passam por investigação.
 
Aliás, os números da especializada são alarmantes. Eles apontam que, por mês, pelo menos 110 mulheres foram vítimas de algum tipo de violência doméstica em Franca. Isso representa quase 26 casos por semana e um total de 773 registros.
 
Esses índices correspondem aos boletins de ocorrência lavrados e que se enquadram na lei Maria da Penha que, na semana passada, completou 12 anos de existência. Neles, entram os crimes de vias de fato, lesão corporal, ameaça, calúnia e suas vertentes.
 
Dos números referentes a janeiro a julho deste ano, 440 correspondem a ameaças; 236 a agressões físicas; 55 foram vias de fato e 42 de injúria, calúnia ou difamação. Também significa que, diariamente, cerca de três vítimas vão até a delegacia especializada, na avenida Hélio Palermo, para prestar queixa.
 
 
Lei Maria da Penha completa 12 anos de vigência no Brasil
A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, que estabelece como crime a violência doméstica, foi vista como uma forma de mudar a vida de milhares de mulheres que sofrem algum tipo de violência, seja ela física, psicológica, moral e/ou sexual.
 
O nome da lei deriva de uma história verídica, de violência doméstica que a farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, de 71 anos, sofreu por 23 anos com o marido, o economista colombiano Marco Antonio Heredia Viveros. Foi por causa dele que ela ficou paraplégica. Hoje, faz palestras pelo País e fundou um instituto em Fortaleza (CE), que leva seu nome. Trata-se de uma ONG  que busca, através da educação, conscientizar mulheres sobre seus direitos, como podem obter ajuda e também fortalecer e divulgar a Lei Maria da Penha.
 

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