'Eu podia ser madame, mas gosto de trabalhar'


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Maria Teresa Segantin tem 50 anos. Muito diferente do estereótipo atribuído a ela, jura que é avessa a festas, não gosta de viajar, de badalação e, muito menos, de “aparecer”. O que gosta mesmo é de trabalhar. E de ficar em casa, com o marido, Clóvis Ludovice, fundador e chanceler da Unifran. “As viagens que encaro ou eventos dos quais participo, o faço para agradar ao meu esposo, que gosta muito. Mas, por mim, seria só casa e trabalho”, disse. Professora formada em letras, pedagogia e direito, Maria Teresa dirige a Toulouse Lautrec, uma das escolas mais conceituadas da cidade, com o mesmo zelo e rigor com que dirige a própria casa, um espaço amplo e sofisticado onde, apesar da farta mobília e dos muitos cômodos, prefere cuidar do “seu jeito”, sem ajuda de empregadas. “Minha mãe me ensinou desde criança a fazer tudo em casa”, recorda.
 
É curioso descobrir que é você quem faz toda a faxina da sua casa. Por que?
Aprendi a passar, lavar, cozinhar, bordar e fazer tricô desde muito cedo. Quando tinha 8 anos, minha mãe, Maria Segantin, costureira famosa em Orlândia, me colocou na máquina de tricô. Meus pais sempre passaram para mim que era fundamental trabalhar. Eu trabalhava em casa. Minha mãe dizia que eu não sabia como seria meu futuro. Que eu tinha que aprender para que, se precisasse fazer, ou (então) para saber mandar. 
 
Você tem profissionais que lhe ajudam? 
Não. Sou muito ciumenta com minha casa e gosto de por as coisas do meu jeito. Então, eu mesma faço tudo.
 
E o que você gosta de fazer para se divertir? 
Poderia dizer que gosto de passear, mas não fui acostumada a isso. Não fui criada para a diversão. Meus pais sempre foram pessoas muito sérias e eu vivenciei isso desde muito pequena. Sempre foi uma vida muito concreta, não tinha muito o que sonhar. É trabalhar e trabalhar e levar a vida muito a sério. Não fui acostumada a viagens, a passeios. Hoje faço porque meu esposo gosta e casamento é uma parceria; você tem que abrir mão de algumas coisas, mas não me faz falta. Gosto mesmo é de ficar na minha casa. É escola e minha casa. Quando comprei a Toulouse, soube de algumas pessoas que diziam que eu tinha comprado a escola para andar de salto alto nos corredores e que não ia durar muito tempo. A visão que as pessoas têm de mim é de madame, de nariz em pé. Sou o oposto do que se fala por aí.
 
Mas não é possível que não tenha nada do que você goste, que lhe dê prazer. Você não tem nenhum hobby?
(pensa por um instante) Sapatos! Adoro sapatos. Também gosto de comprar livros e quadros. Mas tenho fixação por sapatos, desde bebê. Já perdi as contas de quantos tenho. Mas não fiquem pensando que compro Louboutin ou Chanel. Não é. Acho um absurdo a pessoa pisar em R$ 7 mil! Meu pai sempre foi uma pessoa muito segura, não era de dar presente. Ele sempre capitalizou e isso ele sempre ensinou para nós. Tanto que no final da vida ele tinha para ele, para minha mãe e ainda sobrou. E eu passei tudo para o meu irmão (padre José Geraldo Segantin), porque quando ele se aposentar, não vai ter. E esse foi um dos pedidos da minha mãe antes de morrer. Para eu cuidar do meu irmão e ele de mim. 
 
Desde quando você dá aulas?
Nossa, já são 27 anos! Fiz letras, pedagogia e direito, mas quis seguir o magistério. Sempre falou mais alto. Tive grande influência da minha mãe, que queria ser professora, mas o pai não deixou, do meu pai e de duas primas, Edna e Olinda Segantin. A Edna foi, inclusive, minha professora no magistério. Cresci ouvindo meu pai falar das realizações dela e eu achava muito bonito. E as duas, por sinal, também foram donas de escola. Naquela época, ser professora era a melhor profissão. 
 
O que mudou?
Ah, o magistério era um profissão respeitada, tinha um tratamento diferenciado. Era como deveria ser até hoje. Se você é um arquiteto, médico ou engenheiro, você necessariamente passou por um professor. Ele é fundamental, mas hoje em dia não tem o devido respeito. Por isso, aqui na Toulouse, fazemos questão de valorizar o corpo docente. 
 
Você está casada há quanto tempo?
Vim para Franca faz 18 anos, conheci meu esposo no meu primeiro dia de trabalho no Objetivo. Fui contratada pelo José Silveira Maia. Cheguei para trabalhar e ele entrou. Fui apresentada a ele, não o conhecia. É até bom eu contar essa isso, porque assim esclarece essa história. Quando conheci meu esposo, ele já estava separado. (...) Temos uma vida muito tranquila, muito calma. Somos nós dois. É um pelo outro. O Clóvis é meu grande incentivador, professor, grande exemplo como empresário e educador. Algumas pessoas diziam que ia durar só seis meses, mas tem muitos profetas em Franca. Só que o número da Megasena ninguém me fala (risos), mas não dou muita importância para o que falam. Se eu der, não saio de casa.
 
E a sua história com a Toulouse, como começou?
Quando cheguei a Franca, a primeira vez que passei em frente a Toulouse parei o carro. As formas geométricas me chamaram a atenção. Me apaixonei pela escola. Não sabia da pedagogia da escola, nunca tinha entrado aqui, mas gostava. Quando sai da universidade (Unifran), meu esposo falou tinha que fazer uma escolha, ou deixar o dinheiro aplicado ou investir. Daí pensei: meu pai sofreu muito para eu estudar e eu sempre gostei de trabalhar. Quero é trabalhar. Eu poderia ser madame, mas não é a minha. Então fomos atrás de uma escola. Nas outras que fui, não conseguia entrar. Queria essa. A escola estava quebrada e já estavam querendo vender há algum tempo. Comprei. 
 
O que você alterou na gestão da escola desde que assumiu? 
Assumi há três anos. Fiquei um ano só observando, aprendendo. As pessoas achavam que eu ia ser só sócia. Quando assumi efetivamente, no dia seguinte já fiz demissões. Já sabia por quem eu tinha que começar. Mexi num vespeiro, mas tinha que ser feito.
 
Você disse que quando comprou a escola, ela estava quebrada e, desde então, vem fazendo mudanças, enfrentando problemas. Nesse período, qual foi o aspecto mais difícil de lidar? Com as pessoas? Com a parte financeira? A gestão propriamente dita?
Com as pessoas não tive dificuldades. Tenho excelentes professores. Eles são competentes, vestem a camisa, são comprometidos, amam o que fazem. E a parte pedagógica estando perfeita, é o principal. O maior obstáculo foi na parte administrativa. Estava muito desorganizada. Refizemos toda a secretaria. Hoje a secretaria é modelo a ser seguido. Tive que mudar, também, a parte financeira, que era muito primária. Hoje tenho uma funcionária muito competente, que organizou isso tudo. Quando entrei, não tinha dinheiro para pagar a folha. Rezava para os pais pagarem a mensalidade para eu poder cobrir a folha. E quando paguei a folha e os impostos, respirei. Você tem que andar em dia com o pagamento dos funcionários e impostos. 
 
Quais são seus planos a curto prazo? 
Quero ter anfiteatro e uma biblioteca maior. E vou fazer. Não é difícil. Tem que ter metas, objetivo e organização para se conquistar as coisas. 
 
Mas a maioria das pessoas acha difícil, justamente, ter metas, objetivo e organização...
Tenho um grande professor. O Clóvis é meu grande professor, meu grande exemplo. Só não aprendeu com ele, quem não quis. Além disso, estou muito bem assessorada pelos meus funcionárioss. Eles gostam de trabalhar aqui. Pra ajudar, minha habilitação em pedagogia é em administração, então, estou preparada para os desafios. 
 
Por falar em desafio, como foi o trabalho para conseguir a vice-liderança do Enem logo no primeiro ano de participação da escola?
Desde o começo, decidi que queria os melhores professores e o melhor material para preparar os alunos e consegui ambos. O apostilado é o excelente Farias Brito, com 100% de aprovação no ITA e é um grande diferencial. Mas essa história começa lá atrás, quando fundamos o ensino médio. Foi muito difícil fundar o médio. Foi como um parto a fórceps. Uma semana antes de apresentar a proposta para os pais, tinha menos da metade do corpo docente necessário. Muitos professores foram pressionados por outras escolas para não continuar trabalhando aqui e fui abandonada por vários deles. Depois tive que trabalhar com a credibilidade dos pais. O que é novo é sempre difícil e eu não tinha nenhum resultado para apresentar. E aqui falamos dois idiomas: o português e o enemês (risos). Os pais querem resultado, o aluno tem que passar bem no Enem e eu tinha que dar esse resultado para os pais. E quando sou desafiada, funciono melhor. Tinha de um lado professores impedidos de trabalhar aqui, de outro a desconfiança dos pais, a evasão dos alunos e muitas mudanças que eu ainda precisava fazer na escola. Foi muito desafiador. 
 
E qual foi o desfecho?
Na reunião com os pais, fui clara. Disse “quem quiser ficar, fica. Quem não quiser continuar, entendo, mas não vou parar por causa disso”. E, mesmo diante de muitos que não apostaram, comecei o ensino médio com apenas 12 alunos. Fui com a cara e a coragem. E deu certo. Agradeço aos pais que ficaram, com quem tenho grande parceria. E devo muito aos pais que não acreditaram que daria certo, rezo por eles todos os dias. Eles foram a mola propulsora para que eu seguisse em frente e atingisse meu objetivo

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