Exagera-se muito sobre as coisas de comer. “Exagera-se muito a importância da gastronomia em nossa vida”. Um renomado crítico um dia soltou: “eu só queria jantar”. Parece-me que as coisas de comer andam se acomodando gostosamente, como gemas desclaradas num pote pequeno de porcelana. Parece-me também que a euforia dos brasileiros com restaurantes sofisticados encontrou o teto como bexiga com hélio, logo cai. Não falo de frequência, nem do amor a comer bem, mas apenas da bobeira.
Está bastante comum um chef revelação não conseguir manter abertas as portas do restaurante cuja cozinha comanda: Italy, Epice, Brasil a Gosto, são exemplos. Não é raro estabelecimentos com grande valor de investimento não se fixarem na mente dos frequentadores - e daí serem esquecidos. Também assistimos a descendente de nosso chef estrela Alex Atala. Isso na avaliação de críticos que sequer se sentaram à mesa dos seus restaurantes. Como, aliás, também não o fizeram ao lhes dar destaque...A cozinha brasileira, me parece, já esteve mais em moda que agora, é um sentimento apenas. Mas, talvez seja apenas um novo arranjo, porque acredito sinceramente que ingredientes brasileiros saíram do escuro e agora brilham sozinhos e passaram a integrar as cozinhas sem necessidade de apresentações.
Segue a busca pela nossa identidade, não apenas gastronômica. E uma dessas chaves é valorizar nossas raízes e desmistificar aquilo que nós rechaçamos, como o ser caipira, por exemplo. Não por acaso, a comida caipira esteve fortemente presente no último festival Fartura em São Paulo. As expedições do evento se fixaram justo pelo Vale do Paraíba, e o discurso ficou em torno do porco, milho, galinha e feijão – nossos muito íntimos.
A novidade é a utilização do coquinho-catarro como ingrediente. O nome dele é bocaiuva, tem gente que chama de macaúba. É aquele coquinho com aparência de mangostão, mas tem a casa dura. Para quebrá-la, a gente jogava o fruto no chão com força, depois cravava os dentes na fenda da casca e haja gengiva machucada. E tem muito mais cheiro que gosto. No ponto certo de maturação é agridoce. A polpa fresca da bocaiuva é utilizada para sorvetes, é o jeito mais saboroso. Mas o mais fácil é fazer-se primeiro uma farinha e em seguida o sorvete.
Hoje, a farinha é também utilizada para a confecção de bolos, em substituição ao glúten. É uma fruta estreitamente ligada aos índios, que utilizam até os espinhos da grandiosa palmeira para ornamentos. Conta-se a história de uma criança que se perdeu dos pais na mata e foi encontrada um tempo depois bastante forte e disposta, o segredo teria sido uma papa a base de bocaiuva que os índios davam aos filhos e à criança que aparecera na aldeia.
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