Um casal de transexuais de Franca foi preso pela Polícia Federal, ontem, sob a acusação de liderar uma quadrilha envolvida com tráfico internacional de pessoas, exploração sexual e trabalho escravo. O grupo mantinha 14 transexuais em uma casa no Jardim Dermínio. As vítimas eram obrigadas a se prostituir para pagar diárias de R$ 170. Quando o valor não era pago, sofriam humilhações e agressões com barra de ferro e paus com prego.
Os detalhes da brutalidade foram revelados pela Polícia Federal após a conclusão da primeira etapa da Operação Fada Madrinha, que foi deflagrada ontem em conjunto com o Ministério Público do Trabalho e Ministério Público Federal. Também participaram da ação integrantes do Ministério do Trabalho e Emprego e da Organização Internacional do Trabalho.
Desde as primeiras horas da manhã, 58 policiais federais cumpriram cinco mandados de prisão preventiva e oito mandados de busca e apreensão em Franca, São Paulo, Goiânia, Aparecida de Goiânia, Jataí, Rio Verde e Leopoldina. As ordens foram expedidas pela 2ª Vara Federal de Franca, onde o caso começou a ser apurado. “Esta operação tem sua relevância, principalmente, porque se refere à dignidade da pessoa humana e porque é necessária uma rede de proteção estatal para que possamos, além da repressão criminal em relação aos autores do fato, amparar às vítimas que serão assistidas a partir de agora”, disse o delegado Edson Geraldo de Souza, chefe da Polícia Federal na área de Ribeirão Preto.
Aliciamento
A investigação teve início em novembro de 2017, quando a Polícia Federal recebeu denúncia encaminhada pelo Ministério Público do Trabalho de Franca dando conta de que transexuais estavam sendo aliciadas pelas redes sociais com promessas da realização de procedimentos cirúrgicos para a transformação facial e corporal e de participação em concursos de misses na Itália. Entretanto, quando as vítimas chegavam em Franca, elas entravam em um ciclo de endividamento sem fim. “Elas eram informadas pelos investigados que, para realizarem os seus sonhos, teriam que pagar uma diária de R$ 170, dos quais R$ 70 eram para hospedagem e alimentação e R$ 50 para aquisição de roupas, perucas e sapatos e outros acessórios que eram fornecidos exclusivamente pelos investigados”, disse a delegada Luciana Maibashi Gebrim, que comandou as investigações.
Os outros R$ 50 restantes da diária eram destinados para a “poupança de transição” para financiar procedimentos cirúrgicos, próteses mamárias e intervenções estéticas. “O próprio investigado aplicava o silicone industrial nas transexuais. Ele que determinava a quantidade a ser aplicada e local do corpo, tudo isto, a um preço super faturado”.
Os acusados encaminhavam as vítimas para clínicas médicas de Franca, que estão sob investigação, para implante de próteses mamárias, havendo indícios de que as próteses utilizadas eram provenientes de reuso. Algumas das trans que fizeram implante ficaram com sequelas, como necrose do tecido.
Humilhações e pauladas
Para pagar as dívidas, as transexuais tinham que se prostituir nas ruas de Franca e também na casa em que eram exploradas. A qualquer hora do dia, elas tinham que fazer os programas. As vítimas que não conseguiam o valor diário, eram obrigadas a retornar para as ruas e não podiam entrar na casa antes de arrecadar o valor mínimo. “Quem não conseguia pagar, era humilhada de diversas formas, como ter o cabelo raspado, ser deixada nua nas rodovias e, até mesmo ser agredidas com barras de ferro e paus com prego. Aquelas consideradas mais promissoras eram enviadas para a Itália, sob o pretexto de participar de concursos de beleza, mas tinham que arcar com os custos, eram submetidas à exploração sexual e entravam neste regime de servidão sem fim por dívidas”, completou a delegada.
Intercâmbio
Os policias conseguiram localizar 14 vítimas em Franca e descobriram que, somente no ano passado, sete transexuais foram enviadas para a Europa a partir do casal preso nada cidade. Só de silicone industrial, há vítimas com dívida de R$ 9 mil para pagar. Foi apurado que esquema semelhante ao de Franca ocorria em Goiás e Minas Gerais e que havia uma parceria comercial entre os investigados, mediante o “intercâmbio” de vítimas.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.