O cinema é a arte que requisita olhos e ouvidos. A partir do audiovisual, um mundo se apresenta ao nosso cérebro e o efeito é tão poderoso que não é raro nos esquecermos de nós mesmos.
A culinária é a arte que requisita paladar e olfato. Um ótimo prato e a fome são capazes de gerar em nós uma história de afetividade. A mistura homogênea dessas artes funciona bem, os apreciadores se deslocam de um recurso para o outro e a fome, ou a sede, após uma projeção não é mera fantasia.
Tive a oportunidade de um curso com o diretor de cinema Marcos Jorge, do imperdível filme Estômago. Foi ele quem nos alertou sobre a mudança cinematográfica da comida ou do que se come conforme a realidade política. Os primeiros filmes nacionais sobre comida foram justamente aqueles que não tinham comida - a estética da fome em Glauber Rocha, ou em produções como Vidas Secas. A seca e a fome eram exibidas em noticiário nacional, as crianças nordestinas, como as etíopes, eram quadros assombrosos. Lembro-me de ser atormentada por elas.
Depois vieram os filmes sobre banquetes, uma influência europeia acatada pelos filmes latino americanos. É bom, é gostoso falar sobre a opulência da fartura, a comida na sua máxima expressão de arte, como em Vatel, O banquete. Pensávamos nesta época que a vida melhoraria, o futuro sempre melhor que o presente. O rescaldo dessa esperança chegou até a década de 80. A vida era ótima e a gente achava que melhoraria ainda mais. Aproveitamos esse caldo e o apimentamos. Abraçamos o realismo fantástico, o erotismo e nos deleitamos com Como água para chocolate, La teta asustada, Estômago, a Última Ceia, do diretor Tomás Gutiérrez.
Marcos nos explicou que quando ele estava escrevendo o filme havia inúmeras cenas com comida - produção e apreciação-, mas quando a produtora apresentou os valores ele ficou pasmo. Nem mesmo ele, tarimbado no ofício, sabia como seriam caras essas cenas. De fato, quando assistimos a um filme sobre comida, não imaginamos que o prato elaborado e comido tem que ser feito ou comido tantas quantas vezes se fizer necessário. Ele, o prato, é integrante da cena e precisa se interpretar de forma íntegra. Filmar uma feijoada é ter de prepará-la e comê-la umas dez vezes! Ele nos contou que, num set assim, os atores comem muito! É preciso disposição para isso e ainda assim são quilos e quilos de comida para o lixo.
Aqueles que se interessam pelo tema, deixo aqui essas dicas, são ótimos filmes. É bom aproveitar porque, dizem, estamos a rodar películas que tratarão da estética neo-liberal, que no olhar do artista nada mais é do que a perda da comunhão à mesa. Comidas de microondas, embaladas, processadas enchendo a barriga de quem se dispõe a viver morto de fome.
A revolta hoje é a toalha xadrez na grama e a gente deitando e rolando.
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