Crônicas do absurdo


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Um candidato alicerçado no extremismo, na carência de um povo que se vê acalentado por um discurso polêmico, às vezes carregado de preconceito, sem compromisso nenhum com a história, afirmações sem sentido, com um único objetivo: polemizar ao extremo, negar fatos que envergonham o país e afagar milhões e milhões de brasileiros que, desesperançosos, enxergam apenas na radicalização a saída para uma nação que vive sob as consequências de uma guerra civil não anunciada, de uma nação que se vê vítima da roubalheira muitas vezes patrocinada pelos próprios governantes. O caos político e social que o Brasil testemunha neste 2018, imerso na violência, é território fértil para figuras como a de Jair Bolsonaro. O candidato do PSL à presidência da República, capitão reformado do Exército, ostenta o posto de líder das pesquisas eleitorais, quando o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), graças ao seu discurso agressivo. O deputado federal, há quase três décadas, chegou à condição de “mito”, entre seus seguidores, vendendo-se como o único capaz de devolver a ordem ao Brasil.
 
Na última segunda-feira, Bolsonaro foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura. A primeira sabatina do político na condição de candidato ao Palácio do Planalto despertou interesse de todo o Brasil. De admiradores a críticos, milhões de eleitores pararam para ver o que o controverso presidenciável tinha a dizer. Assistiram às crônicas do absurdo. Para os críticos, foi a ratificação de suas impressões sobre o político. Aos seguidores, o fortalecimento de que o “mito” é a única saída para o País. Mas para os telespectadores que se dispuseram a acompanhar a entrevista livres de qualquer paixão, ficou a impressão de que Bolsonaro não tenha ou finja não ter o mínimo conhecimento sobre a história brasileira e de que o discurso forjado na ignorância é o único trunfo do candidato.
 
“Não foi golpe (o golpe militar de 1964), golpe é quando é pé na porta.” “O português nem pisava na África. Foram os próprios negros que entregavam os escravos.” Essas são apenas duas das diversas bizarrices proferidas por Bolsonaro no programa da última segunda-feira. Sua mensagem popularesca pode até levá-lo à Presidência da República. O Brasil corre o risco de repetir em 2018 o que os Estados Unidos fizeram há dois anos. Mas, aqui, dificilmente o extremista de direita terá espaço para colocar suas ideias – ou falas – em ação. Diferentemente de Donald Trump, cujo partido – o Republicano – detém maioria no Congresso norte-americano, Bolsonaro faz parte de um partido nanico e, se eleito, terá de formar uma ampla aliança para garantir o mínimo de governabilidade. Algo que não combina com seu estilo.
 
Se a eleição de Bolsonaro se concretizar, seu governo está fadado a sofrer do mesmo mal de seu discurso: o vazio.

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