A luta do MBL contra o Facebook é a mesma ignorância daqueles que lhe deram ouvidos
As redes sociais deram voz aos imbecis. Foi assim que o mestre Umberto Eco resumiu o fenômeno que domina correntes “ideológicas” - entre aspas porque não há ideologia nenhuma nelas, no máximo modismos - e políticas do mundo atual. “Em terra de cego, quem tem olho é rei.” Assim um dito popular exemplifica como no império da ignorância, qualquer ser dotado da primária capacidade de juntar palavras, pelo mínimo sentido que a sentença possa ter, é qualificado a comandar a massa inculta. MBL (Movimento Brasil Livre) e Facebook são a cria e o criador, o comunicador e o meio. No Brasil, estão tão ligados um ao outro que beira o absurdo assistir a uma disputa pública entre ambos. .
Era 2013. Sem saber ao certo por quê, milhões de brasileiros foram às ruas. O movimento começou em São Paulo. Era contra o aumento de 20 centavos na tarifa do transporte metropolitano. Impulsionada pelos gastos milionários nos estádios que receberiam os jogos da Copa do Mundo, no ano seguinte, as manifestações paulistanas contra os 20 centavos tornaram-se brasileiras contra... Bem, isso, até hoje não se sabe. Sabe-se, porém, que foram terreno fértil para o fortalecimento de grupos de direita e, também, como tiro nos velhos políticos.
Acostumados a darem as caras de quatro em quatro anos, blindados pelo isolamento de Brasília, não souberam falar pelas redes sociais. Acabaram gravemente feridos. Os velhos políticos cederam importante espaço para os políticos das redes sociais. Foi o advento do MBL. Com um discurso anticorrupção, os moleques do MBL - não no sentido pejorativo, mas no etário - surfaram na onda da insatisfação despersonificada, aproveitaram-se dos escândalos desvendados, nos anos subsequentes, pela Operação Lava Jato. Foi uma das principais vozes no impeachment de Dilma Rousseff (PT). Sagazmente, os moleques do MBL aproveitaram-se das circunstâncias da época. Deram cara ao que todo brasileiro era contra - e não sabia o que era. Essa cara talvez nem seja o motivo dos protestos, mas foi personificada pelo MBL. Usaram como ninguém o Facebook. Hoje, após páginas e perfis que disseminam fake news pela internet serem extirpadas do Facebook pelo Facebook, a cria voltou sua ira contra o criador.
Os moleques do MBL agiram num campo livre, sem regras. Agora, condenados a viver sob as leis da vida em sociedade, em que a verdade seja a guia-mestra, se veem sem chão. Agem contra o Facebook, como agiram contra o governo Dilma, contra antigos aliados... Com uma ponta de razão, foram além dos limites contra alvos corruptos e/ou frágeis. Agora, contra uma empresa que perde em apenas um dia o equivalente ao Bradesco e Petrobras juntos e ainda assim está no lucro - se comparado com os resultados de alguns meses atrás -, é no mínimo prepotência. Mas, em sua essência, a luta atual do MBL é a mesma ignorância - pura e simples - daqueles que lhe deram ouvidos.
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