A mudança não deve ser apenas de imóvel


| Tempo de leitura: 2 min
DISCUSSÕES SOBRE O ABRIGO PROVISÓRIO NÃO PODEM SE RESTRINGIR AO ENDEREÇO
Uma nova polêmica envolvendo moradores de rua veio à tona no último fim de semana. A controvérsia da vez é a localização do Abrigo Provisório. Há duas semanas, a Prefeitura anunciou a mudança do serviço da Vila Gosuen para a sede campestre do Clube Internacional, nos fundos do posto Paineirão. O padre Ovídio Andrade, presidente da Pastoral do Menor e Família, que assumiu a administração do serviço neste mês, é contra a troca de endereço, se não for para uma região mais central. Foi duro nas palavras, falou em “higienização dos pobres”. Ouviu como resposta do prefeito Gilson de Souza (DEM) que “quem paga a conta e decide o endereço é a Prefeitura”. A discussão acalorada pode ser infrutífera, se ficar apenas no âmbito da mudança física. É preciso ir além e debater qual é a real função do Abrigo Provisório.
 
Ao anunciar a troca de local onde o serviço é prestado, o secretário municipal de Ação Social, Vanderlei Tristão, alegou que um dos motivos seria para acabar com a “cracolândia”, que se transformou a região onde o Abrigo está localizado. Para o secretário, a mudança para um local afastado da cidade inibiria a concentração de usuários de drogas, já que não teriam a quem pedir esmolas. Ficariam no local apenas aquelas pessoas que realmente precisassem de um abrigo. “Nossa intenção é oferecer melhores condições de atendimento. Não é possível mais manter o Abrigo no local atual, que está completamente deteriorado. O índice de violência na região é muito grande. Pretendemos reformar a nova sede, aumentar o número de vagas e ampliar o serviço.”
 
Para o religioso, levar o serviço para um lugar ermo é “repetir a história do passado: a famosa higienização”, citando a mudança de moradores da favela da Vila Santa Cruz, na década de 1990, para a Vila Gosuen. “Eu contestei, sim, e não concordei com a proposta de mudar. Antes de mudar, vamos humanizar a região (...) Estão condenando o pobre a viver no ciclo da miséria.” Os planos do prefeito, porém, é transformar o atual prédio do Abrigo em uma creche.
 
Nas explicações da Prefeitura e nos questionamentos do padre, há justificativas que embasam tais posições. Mas, nas atuais condições, no que o serviço se tornou, o município está corretíssimo ao defender a mudança. O Abrigo hoje não funciona como um albergue, mas sim - na maioria das vezes - como moradia temporária para usuários de drogas que, quando vencido o prazo máximo para permanecerem no local, vão para as calçadas e terrenos das proximidades, à espera de nova oportunidade para voltarem. Se o serviço funcionasse realmente como um albergue, para atender temporariamente pessoas de passagem pela cidade, sem um lugar para ficar, nada justificaria a mudança a não ser, como defende o padre, para uma região mais central.
 
Como está, a mudança é necessária. Mas mais que ela, é preciso repensar os serviços e a forma como hoje eles são prestados.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários