A decisão da Prefeitura de mudar o Abrigo Provisório de Franca para novo endereço e desmontar a “Cracolândia” abalou ainda mais as já conturbadas relações entre o governo municipal e o padre Ovídio. Presidente da Pastoral do Menor e Família da Diocese, ele afirma que o município pretende fazer “higienização dos pobres” ao mudar o abrigo provisório para uma chácara e disse que não aceita a decisão. A Prefeitura nega as acusações, diz que o religioso sempre é “do contra” e que não cabe a ele decidir o local em que o serviço de acolhimento irá funcionar.
O Abrigo Provisório opera na Vila Gosuen, na região do “Puxa Faca”, e é alvo de constantes reclamações. Criado inicialmente como um albergue, onde deveriam se hospedar pessoas que estivessem de passagem pela cidade e sem um lugar para ficar, passou a atender especialmente moradores em situação de rua. O consumo de drogas e bebidas alcoólica nas proximidades é flagrante.
Segundo a Prefeitura, o objetivo da mudança é atender a reivindicação da população e afastar da cidade o espaço que fica em meio a uma “Cracolândia”. O destino escolhido foi a antiga sede campestre do Clube do Internacional, localizado nos fundos do posto Paineirão, na saída para Cristais Paulista. “Nossa intenção é oferecer melhores condições de atendimento. Não é possível mais manter o Abrigo no local atual, que está completamente deteriorado. O índice de violência na região é muito grande. Pretendemos reformar a nova sede, aumentar o número de vagas e ampliar o serviço, mas o padre foi muito duro com a gente e não aceitou”, disse o secretário de Ação Social, Vanderlei Tristão.
O ex-vereador não esconde que ficou frustrado com o posicionamento e com as palavras ditas por padre Ovídio. “Ele me deixou muito magoado. O padre nos acusa de querer fazer a ‘higienização’ dos moradores de rua. Quem conhece a história, sabe que isso é um xingamento.”
O secretário disse que a intenção de sua equipe é oferecer um tratamento mais digno e se colocou à disposição da Pastoral para continuar colaborando. “Estamos lutando, desesperadamente, para fazer o melhor para estas pessoas. Confesso que não está fácil trabalhar. Sempre são as mesmas pessoas que ficam contra. Tudo o que a gente vai fazer, eles aparecem e dificultam. Infelizmente, o promotor (de Justiça) fica do lado deles. Querem que a gente leve os usuários do Abrigo para o Centro.”
‘Humanizar’
A Pastoral do Menor e da Família assumiu a gestão do Abrigo Provisório há duas semanas após vencer o chamamento público e se posicionou contra a mudança que já havia sido decidida pelo governo. “Eles têm que seguir as normativas da política pública. É preciso adequar o prédio. Não é juntar todo mundo num barracão e pôr para dormir. Fica mais barato reformar o prédio atual. Eu contestei, sim, e não concordei com a proposta de mudar. Antes de mudar, vamos humanizar a região”, defende padre Ovídio.
O religioso afirma que, por ele, o Abrigo fica onde está. “Para onde querem levar é distante, não tem ônibus, é escuro e não tem segurança nenhuma. Se tiver que mudar, que vá para um local digno, mais central. Estão condenando o pobre a viver no ciclo da miséria. Na verdade, o que eles querem fazer é repetir a história do passado: a famosa ‘higienização’. Igual fizeram com a favela da Vila Santa Cruz, na década de 1990, e levaram para a Vila Gosuen. Agora, querem jogar para frente”, disse o presidenta da Pastoral.
‘Quem decide o endereço é a Prefeitura’
A Prefeitura pediu à Pastoral do Menor e Família da Diocese que faça um comunicado por escrito afirmando que não concorda com a mudança. Apesar de dizer que é contra, Padre Ovídio não pretende fazer o documento.
Indiferente à posição do padre Ovídio, O prefeito Gilson de Souza (DEM) segue com o firme propósito de colocar em prática a decisão de seu governo. “O padre vai receber para cuidar do Abrigo, porque se ofereceu para fazer o serviço. Quem paga a conta e decide o endereço é a Prefeitura”, sentenciou.
Gilson defende que a mudança será benéfica para todos. Ele afirma que os usuários do Abrigo serão melhor atendidos, ao mesmo tempo em que os moradores da Vila Gosuen viverão numa região recuperada. Por isso, afirma que não voltará atrás em sua decisão.
“Qualquer um pode ter a opinião que quiser, pode achar que o Abrigo ficaria melhor onde está ou até mesmo defender que ele vá para o Centro. Mas, quem decide isso é a Prefeitura. E a decisão é tirar o Abrigo da Vila Gosuen e levar para a chácara do Internacional.”
Gilson disse que já tem novos planos para a ocupação do prédio onde o Abrigo funciona atualmente. “Sei que o secretário de Ação Social pretendia fazer um centro de formação profissional, mas sinto que a creche é o eixo mais certo. Vamos investir nas crianças e recuperar aquela região.”
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