Boas coisas


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Na ilha do Combu, próxima a Belém do Pará, aconteceu aquilo que muitas vezes acontece: alguém, premido pelas dificuldades, vê-se obrigado a mudar - e a mudança acaba sendo a grande virada na vida do indivíduo. Aconteceu assim com Dona Nena, que viveu a vida em meio a mata amazônica, plantando cacau e vendendo as castanhas desses cacaueiros orgânicos. A reconhecida qualidade dos seus frutos são a matéria de requintados chocolates pelo mundo. Mas em 2006 a renda da família teve que ser fomentada e Dona Nena partiu para a manufatura do chocolate. É tudo muito simples, mas, também por isso, o produto final é puro tanto quanto as castanhas do cacau. Não há qualquer interferência industrial, razão pela qual é possível ver as mãos de Dona Nena no seu chocolate. Seu produto é o seguinte: sementes de cacau fermentadas, secas e torradas são trituras até virarem uma pasta, que é enrolada na folha do cacaueiro e é só. Imagino que seu amargor seja ancestral. Dona Nena está aqui, mas sua concepção de chocolate difere da nossa dulcíssima herança portuguesa. 
Ligando Ilhéus a Uruçuca, há uma pequena estrada que está sendo chamada de Estrada do Chocolate, inaugurando uma nova rota turística no Nordeste. Em Ilhéus, imaginamos cacaueiros por toda parte. Jorge Amado nos guiou por eles, nos contou dos ricos coronéis do cacau, das estiagens e das chuvas que regulavam a safra cacaueira. Não por acaso, sua Gabriela chega num esperado dia de sol, ela vem misturada ao calor que os brotos do cacau ansiavam após chuvas torrenciais. Mas não me lembro de Jorge Amado falar de chocolate. Ilhéus fazia o que é comum ao Brasil inteiro: vender nossa excelente matéria-prima. 
Mas há alguma mudança. O jornal Folha de S. Paulo divulgou o circuito das fazendas de Ilhéus que compõem o circuito do chocolate. São fazendas que plantam num sistema chamado cabruca, em meio a mata Atlântica. Plantam e beneficiam as castanhas da fruta produzindo de chocolate a aguardente do mel do cacau. Os produtos são oferecidos aos turistas que estejam hospedados nas fazendas ou simplesmente tenham pago por um passeio ou por um dia de aventuras pela mata. 
O surpreendente é que, na maior parte, são os proprietários que recebem os visitantes ou que acomodam os viajantes - vão-se os tempos do coronelismo? Isso lembra bastante o fenômeno que fez da França um polo gastronômico mundial. Engana-se quem pensa que a comida francesa tenha vindo de Paris, a coisa toda é bem caipira. Os responsáveis foram os restaurantes e albergues familiares de beira de estrada ou da campanha. 
E para que tudo isso dê certo é preciso que a mudança nos atinja. Precisamos tratar a miopia que sustenta a ilusão de ótica do colonizado, precisamos ir ali no quintal e olharmos para quem somos, saborear um chocolate do Combu, dormir numa fazenda em Ilhéus e nos sentirmos num banquete.  

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