Fui questionada sobre uma afirmação da semana passada. Com brilho de faca no olhar, um leitor me disse que não é certo dizer que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxico do mundo sem antes considerar nossa proporção continental ou produtividade. Quem defende a utilização indiscriminada de agrotóxico traz algumas variantes que nos desloca do primeiro para terceiro lugar, por exemplo. Mas o que isso importa realmente se estamos discutindo o aumento de veneno na lavoura? A continuar assim, vamos dar as costas àquela que é a mais importante discussão do nosso século: os meios de produção agrícola e a monocultura. A Dinamarca, por exemplo, tem como meta zerar a utilização de agrotóxico nas lavouras até 2020.
A utilização de agrotóxico nas lavouras não é assunto apenas da agricultura - é de toda a sociedade brasileira. Porque as consequências são, por todos nós, suportadas. Se gentileza gera gentileza, o solo envenenado emitirá resposta.
Não é preciso entender de terra para ver que o chão da monocultura que se apoia nos agrotóxicos é compactado e desidratado. A chuva que cai ali, como a charada da nossa infância, cai de pé e corre deitada a toda velocidade, levando consigo o veneno que inevitavelmente chegará ao riacho mais próximo e participará de toda a cadeia das águas. Há partículas de agrotóxico até no Ártico. Em resumo, essas plantações contaminam nossa água de beber e viver e utilizam enormes quantidades dessa mesma água para irrigação.
Não é preciso entender de terra para saber que o solo debaixo da forração de um suave tapete de folhas é fértil. A deposição de matéria orgânica possibilita a formação do húmus. A agricultura apoiada nessa técnica segura a água da chuva e reduz imensamente a necessidade de água para irrigação na estiagem. Além disso, não contamina nem solo, nem a água, nem a gente.
Dizer que não tem jeito, que nós não somos a Dinamarca, que vai ser sempre assim, é confortável. Eu mesma ouvi agricultores, agora praticantes da agrofloresta, dizerem que chegaram ao ponto de plantar só para pagar os custos com insumos e defensivos. Quanto a produtividade, outro estandarte dos defensores dos agrotóxicos, também está caindo de maduro: Ernest Götsch, por exemplo, cultiva cacau em meio a floresta, e seu fruto é melhor, seus pés são mais produtivos do que os das fazendas convencionais.
Não é o caso de atirar pedras, isso é um processo. Minha atividade profissional também é predatória ao meio ambiente, sou um entre bilhões de humanos que, todos os dias, na bilionésima fração, gira o botão do choque que acabará por eletrocutar o planeta.
Meu choque sozinho seria imperceptível, mas somos muitos, somos quase insuportáveis.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.