Alento a um povo carente de atenção


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SUPOSTO MILAGRE DURANTE INCÊNDIO DE VEÍCULO GERA ONDA DE COMOÇÃO
Bastou uma postagem no Facebook para a história que aconteceu em uma das ruas do bairro Santa Rita, em Franca, se espalhar pelo Brasil. Os elementos explicam o motivo de tamanha euforia com tão impressionante acontecimento. Um suposto milagre durante o incêndio de um veículo surpreendeu e encantou milhares e milhares de brasileiros. Os céticos encontram na física e na química explicações para o ocorrido. A Igreja adota a tradicional e prudente cautela que casos como esse exigem. Já grande parte dos fiéis prefere acreditar na ação de Deus. Como explicar que o fogo que consumiu a parte dianteira de um VW Gol, destruiu os bancos do veículo, deixou intactas parte de folheto com uma oração e a teca - recipiente utilizado para transportar a Eucaristia levada a católicos impossibilitados de irem à igreja -, que estavam sob o assento queimado? 
 
Era tarde de domingo, quando o incêndio começou. Uma possível pane no carro originou a comoção. Uma senhora de 72 anos saía de casa com os aparatos de servir a Eucaristia, o corpo de Cristo, de acordo com a fé católica. O fogo, a oração, um terço e a hóstia. Elementos da liturgia católica reunidos em um episódio que cientistas desvendarão as condições físicas e reações químicas que culminaram na preservação dos objetos. Mas, para os fiéis, não explicarão os motivos. Não explicarão por quais motivos o incêndio não foi tão forte a ponto de derreter o terço, não foi prolongado o bastante para consumir o papel com a oração, nem chamuscar a caixinha de metal. As teorias científicas não serão capazes de tirar a certeza de milhares de “órfãos de pai” de que ali quem agiu foi Deus.
 
A reação sobre o suposto milagre é sinal de nossos tempos. A personagem do caso prefere manter o anonimato, a Igreja - em questões de dias - deve descartar a ação divina, mas o povo... Esse sim propagará aos quatro cantos, como tem sido feito durante esta semana, que o “milagre” aconteceu. É confortador, é exultante para os fiéis materializar o invisível. A experiência com o divino no campo material transcende as experiências espirituais. Em tempos de relações virtuais substituindo o mundo real, de individualismo exacerbado, de representantes políticos distantes dos anseios da população, a repercussão desse caso demonstra que o ser humano continua humano, carente de contato físico, de compaixão, de cuidado.
 
A ciência certamente explica o fenômeno. Mas para os fiéis, crer em milagre é necessário. Testemunhar, mesmo que com imagens compartilhadas pelas redes sociais, a “mão divina” agindo entre nós é um alento para uma população tão sofrida, carente de lideranças, de cuidado. Para eles, milagre ou ciência, pouco importa. O importante é que a oração a Deus e a pequena caixinha de transportar o corpo de Cristo resistiram ao fogo.

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