Como um jogador que bate a falta antes que a barreira se posicione, nossos governantes, de forma recorrente, esperam pela nossa distração para desengavetar projetos absurdos e colocá-los em votação. E aprová-los - sabe-se lá Deus com quais técnicas de convencimento aos deputados.
Um procedimento que nos leva a pensar que temos um governo em permanente oposição aos brasileiros, o que dá muita canseira e tristeza na gente…
Nessa edição de Copa do Mundo, as medidas foram três: aumentaram os planos de saúde além do índice inflacionário e a bancada ruralista, com dois projetos de lei, armou um contra-ataque mortal contra a terra, contra os brasileiros, contra a produtividade. Uma PL, a de número 6299, busca ampliar e descriminalizar o uso de agrotóxicos nas lavouras.
Há 10 anos, o Brasil é o principal consumidor de agrotóxicos no mundo, e isso não é o bastante. Está provado que agrotóxico se relaciona com uma série de cânceres. Como não dá mais para discutir isso, a bancada ruralista afirma que é um risco negociável contra uma necessidade premente: a da produção de alimentos em larga escala…Seria difícil obter essa resposta não fosse o fato, também comprovado, de que é a agricultura familiar ou de pequeno porte que nos alimenta! Já disse isso por aqui e acho tão maravilhoso que gosto de repetir: quase 80% dos alimentos ingeridos por nós humanos vêm da pequena agricultura. O veneno é approach do agronegócio, o Cérbero - gado, grãos e cana.
A segunda PL, a de número 4576, é uma charada proposta por uma esfinge congressista. Sob o pretexto de proteger a agricultura familiar orgânica, a nova lei diz que os orgânicos são atribuição exclusiva desse tipo de produtor rural, somente eles poderão fazer a venda direta ao consumidor. A principal justificativa é evitar a venda de falsos orgânicos, mas o Brasil tem um selo de controle de qualidade para esse tipo de alimento, e não é fácil consegui-lo. A fraude pode ser perpetuada pelo supermercado, pela cooperativa ou pelo produtor individual, não é prerrogativa da personalidade jurídica. Além disso, o consumidor habituado aos orgânicos os reconhece. Mas o caroço desse angu me parece ser o seguinte: dificultar a vida das empresas produtoras de orgânicos.
O mercado de orgânicos cresce a botinadas - o grupo Pão de Açúcar revelou que as vendas de orgânicos crescem cerca de 30% ao ano. A bancada ruralista sabe que o agricultor familiar não tem cadeia de distribuição, não tem poder de negociação com grandes mercados. E enquanto a produção de orgânicos está concentrada nas rocinhas familiares, ele é utópica ou coisa de ecochato. Quando ela é feita por grandes empresas como a Native, ou a Mãe Terra, ela vira uma incômoda realidade. E por último, mas não menos importante, a relatoria dos dois projetos de lei é do mesmo deputado Luiz Nishimori. Como é possível alguém a serviço dos interesses dos fabricantes de agrotóxicos estar preocupado com os orgânicos? Quem só viu lata não opina sobre ouro.
Corrijo-me, eles estão sim, muito preocupados com os orgânicos.
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