'O esporte forma cidadãos e comigo não foi diferente'


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Quem acompanha o esporte em geral, já ouviu falar de Maria Zeferina Rodrigues Baldaia, que conseguiu um feito raro no atletismo brasileiro: vencer a Maratona de São Silvestre, um dos principais eventos esportivos do País. O Brasil teve apenas seis mulheres na história que venceram a corrida. Sempre com muita garra e determinação, a atleta ficou conhecida por vencer maratonas nacionais e internacionais - dentre elas a citada São Silvestre no ano de 2001 -, conquistando vários recordes durante sua carreira. A história de vida de Maria Zeferina é de muita luta e superação. Natural de Nova Módica (MG), mudou-se para o interior paulista ainda criança, pois o pai trabalhava em uma lavoura de cana-de-açúcar. Desde muito nova, Maria já se esforçava como boia-fria para ajudar sua família. Acordava às 4h da manhã e voltava às 5h da tarde. Chegava em casa, trocava de roupa e ia treinar: corria descalça pelos canaviais, até que, um dia, conheceu um treinador, passou a integrar grupos de corridas de rua e conseguiu seu primeiro patrocínio.
Atualmente com 46 anos, ela não corre mais profissionalmente, participa apenas de corridas menores e encara a vida de atleta como hobby. A maratonista esteve em Franca no último dia 21 de junho e visitou a redação do Comércio e a Rádio Difusora para promover a 1ª Night Run - Acofranca (informações: www.acofranca.com .br), em prol do Hospital do Câncer, que acontecerá dia 7 de julho, às 19h, com saída em frente à sede do Senai (Avenida Presidente Vargas, 2.500, Cidade Nova). Confira o bate papo:
 
O que te inspirou a ser uma atleta?
Inspirei-me na Rosa Mota, corredora portuguesa que venceu a São Silvestre seis vezes seguidas. Assistia à corrida na casa da minha vizinha, pois não tinha TV, era na virada do ano, e sempre pedia a ela para me deixar assistir. Desde então, coloquei na cabeça que queria ser igual ela.
 
Como foi o início de sua carreira?
Eu trabalhava como boia-fria na lavoura em Sertãozinho (SP) para ajudar meus pais. Quando tinha 12 anos, participei de uma corrida de rua e venci correndo descalça. Depois de muita insistência de um treinador, comecei a fazer parte dos grupos de corrida de rua e praticamente em todos os finais de semana participava de corridas na região. Porém, a falta de patrocínio fazia com que eu tivesse que alternar meus horários de treino com o trabalho na lavoura. Muitas vezes eu acordava às 4h da manhã, voltava do trabalho às 5h da tarde e ia treinar à noite. Depois tive a oportunidade de ser atleta da Cava do Bosque, em Ribeirão Preto (SP), e meu primeiro patrocínio foi dado pela empresa Ouro Fino, que me deu um emprego de meio período, permitindo que eu treinasse à tarde.
 
Como você vê o cenário atual do esporte e do atletismo no Brasil e também aqui na região?
Primeiro, o esporte forma cidadãos e comigo não foi diferente. Através dele, consegui ajudar minha família, dar uma casa a meus pais, viajar para outros países, conhecer outros atletas do Brasil e do mundo, e se sou quem eu sou hoje foi através do esporte. A corrida cresceu muito na região. Isso é ótimo, pois ajuda muitas crianças a saírem da rua, porque a criança que se ocupa com o esporte não pensa em coisas erradas. Existe um projeto de bolsa atleta, onde o jovem ganha uma ajuda de custo para ajudar a família e não precisar trabalhar e largar o esporte, pois muitas vezes o jovem tem que desistir para ter que trabalhar.
 
Existem um livro e um documentário que contam sobre sua vida. Como surgiram esses projetos?
Foi em Ribeirão Preto, com dois escritores que são de lá mesmo, com a empresa que me patrocinava, e eu fiquei muito feliz na época, pois realmente conta minha vida toda, desde minha infância até o prêmio em 2001 na São Silvestre. Eles contam algumas histórias inusitadas e alguns detalhes de corridas, viagens etc. 
 
O livro conta sobre uma história sobre o km 12 da São Silvestre, sua sensação e que passou um filme na sua cabeça... Por que foi tão especial esse momento?
Na São Silvestre, a gente não tem muitas orientações do treinador... Durante a prova e na hora que dá a largada, é só você e Deus. Eu estava apreensiva e perguntei ao meu treinador em que momento eu deveria sair (disparar), e ele disse que era quando chegasse no km 8, porque eu era mais resistente do que veloz, e poderia abrir uma vantagem maior, e como a São Silvestre era uma prova muito difícil, eu fiquei de olho na queniana que estava em primeiro lugar por orientação dele e a persegui até ultrapassá-la. No momento que eu ultrapassei no km 12, passou um filme na minha cabeça, pensei na minha família, no carro que queria dar para minha mãe, no meu irmão deficiente e em tirar meus pais do corte da cana.
 
Como é a sua preparação para os dias de prova? A alimentação é diferente?
Não adianta levantar de estômago vazio para correr, tem que se alimentar. Como uma fatia de pão com mel, um café e saio para o treino, volto como uma bolacha e, depois almoço, isso todos os dias, independente se é dia de prova ou não. A minha alimentação é sempre a mesma, mesmo nos dias de prova, sendo maratonas ou provas curtas, que são as que eu participo atualmente.
 
Como é a sua carreira atualmente e quais seus planos daqui para frente?
Atualmente, continuo correndo, porém não mais profissionalmente, parei há 5 anos e tenho participado de provas menores aqui da região, pois no momento estou pensando em saúde, bem-estar e mais qualidade de vida. Porque quando você está com o patrocinador, você precisa se doar ao extremo e doar mais que 100% às vezes, e resolvi que era hora de parar, pois agora fico mais tranquila, estou com 46 anos e posso levar como hobby e descansar alguns dias.
 
Você tem alguma história inusitada, de alguma viagem, provas, que poderia contar?
Ganhei em Apucarana (PR) um troféu de 2,20 metros de altura e para trazer no ônibus foi uma dificuldade (risos). Atrapalhava todos a irem no banheiro. Tive que tirar a parte de cima para poder guardar no ônibus. Quando me chamaram para receber eu até estranhei e na hora pensei: “Como vou levar esse troféu para casa?”.
Em 2016, você foi uma das escolhidas para carregar a tocha olímpica em Sertãozinho. Como foi a experiência?
Foi muito emocionante! Quando fiquei sabendo das Olimpíadas no Brasil, me perguntei se me convocariam para carregar a tocha olímpica, e, assim que me convidaram, fiquei muito feliz. Fiquei muito nervosa na hora... Quando teve a passagem para mim, eu tremia muito. Parecia que não acabava nunca o trajeto.
 
Uma brasileira não vence a Maratona de São Silvestre desde 2006. Você acha que isso se deve à falta de apoio do Brasil nos esportes e, principalmente, ao atletismo?
Hoje percebo que o apoio ao esporte, de maneira geral, é muito difícil, principalmente no atletismo, pois se foca muito no futebol e não dão apoio aos outros. Outros países lá fora investem e formam muitos atletas, enquanto o Brasil não apoia. A última brasileira que venceu a São Silvestre foi a Lucélia Peres, há 12 ano,s e eu só consegui vencer em 2001 por conta do apoio que tive durante a preparação. Meu foco era só treinar e descansar visando a competição. Todo mundo pergunta por que os atletas quenianos sempre ganham. Porque lá é como se o atletismo tivesse o tamanho do futebol aqui, lá desde os 13 anos as crianças e jovens que têm um certo potencial já começam a ser preparados para o atletismo. E, hoje, apesar da ajuda de alguns clubes, o investimento é só para os corredores de pista, e não de rua, por isso temos uma certa dificuldade em vencer provas como a São Silvestre.
 
Você esteve em Franca para promover a 1ª Night Run, que será realizada em prol do Hospital do Câncer. Como será a sua participação no evento?
Primeiramente, gostaria de agradecer ao Márcio de Souza (um dos organizadores da corrida) pelo convite. É o primeiro ano da corrida e ela será para ajudar o Hospital do Câncer, então eu faço com muito prazer. Minha participação será receber os participantes e entregar os prêmios e ficar disponível para atendê-los com trocas de experiências, tirar fotos e quem sabe poder incentivar as pessoas que estiverem lá.

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