Banho que nada! Quero é apostar nos cavalos...


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Sento ao seu lado e observo-a no outro lado da sala.

Está com os olhos fechados, as pernas estendidas, as mãos cruzadas no ventre.

O que pensa, pergunto eu.

Com o meu movimento, ela abre os olhos e demora a me reconhecer. Está bem velha agora, enxerga pouco; à primeira vista tem dificuldades em reconhecer as pessoas.

Dá um sorriso sem graça. Sem viço. Eu a cumprimento alegre, tentando passar um pouco da minha animação. Lá fora a chuva começa intensa e os trovões passam a explodir. Ela se endireita no sofá e começa a falar.

Diz que odeia trovões, dá um aperto no coração, algo como uma imagem de infinito e nestes momentos só pensa em coisas tristes. Pensa na irmã que morreu, na outra que está no hospital psiquiátrico. Enche os olhos de lágrimas, o rosto fica vermelho e eu sinto muita pena. Tento dizer para não pensar nisto, que é só uma chuva, que vai passar, etc.

Ela se acalma. Olha nos meus olhos com certa indecisão se eu vou ser solidária para com ela com o que vem a seguir. Acha que em parte compartilho com a nova ordem da casa, ou seja, o cuidado excessivo sobre ela, o tolhimento da sua liberdade.

 “Olha, Ângela - diz ela – estou num sofrimento só, todos os dias esta “encheção” (entorta os lábios para os lados em um trejeito de desprezo e imitação da voz da sua cuidadora: “Vamos, senhora, vamos tomar banho! “Está na hora do remédio, senhora”! – “Que saco”, ela diz! Por acaso não sei a hora do meu banho?”

Eu sorrio compreensiva e digo: “A senhora tem razão”. “Outro dia” – continua ela – “começaram a lavar a minha cabeça sem eu pedir”! Mas que chateação!!!

Eu gritei: “Minha cabeça não! Já foi lavada ontem, hoje e amanhã!”

Ela solta os braços sobre o sofá em um simulacro de desânimo. Começa: “Olha, Ângela, estou sofrendo muito”! Queria ir morar em uma pensão! Pelo menos lá eu poderia tomar banho, comer, tudo na hora que eu quisesse. Sem ninguém para me aporrinhar.”

“Sabe, quando morei em São Paulo, eu morava em uma pensão e a vida era esplêndida; eu trabalhava o dia todo, usava aqueles saltos medonhos e depois ainda ia com meus amigos jantar e jogar nas corridas de cavalos do Jockey Club. Como me divertia! Acho que Deus disse: “Você se divertiu muito, agora tem que sofrer aí”... Ficar em casa, tomar banho pelos outros, remédios, não administrar o seu dinheiro...” E ela emenda: “Quero é me divertir, dançar, jogar de novo nos cavalos!”

Eu fico entre a cruz e a espada. Olho para ela, meu coração fica em pedaços.

Como posso dizer que agora tem apenas 20% de visão em um olho, o outro não está nada bom. Tem osteoporose, tem inicio de Alzheimer, e etc. e tal, fora a idade que beira os 91 anos. Não posso dizer isto a ela.

Então, digo: “Olha, liga para isto não! Todos nós temos que comer a nossa porção de sal da vida, aquela que nos foi destinada. A senhora passa aqui os seus problemas, eu passo lá os meus.”

Ela me ouve em suspenso. Aí, começo a contar a minha rotina daquele sábado e faço tanta careta e trejeitos que ela começa a rir e rimos as duas entre lágrimas.

Depois eu complemento: “Faça assim, olhe, deite bem “espichadinha” neste seu sofá, não faça nada! Peça tudo à sua funcionária, coma do bom e do melhor, e faça de conta que é uma milionária em um cruzeiro... ”.

E ela, entre divertida e surpresa, diz: “É mesmo”! “E se por acaso ela me aporrinhar, solto os cachorros, porque voz ainda tenho”

E rimos juntas entre esperanças e dor...
 

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