'Nunca reconheceram o que fiz pelo basquete'


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Jovassi Correia Dias
Jovassi Correia Dias

 “Ééééééé de treeeeis”. Quem acompanha jogos de basquete pelo rádio, certamente, já ouviu e se emocionou com essa expressão várias vezes. Há mais de cinco décadas, é desta maneira que Jovassi Correia Dias, 76, narra quando um jogador acerta uma cesta de longa distância. A história de Jovassi se mistura com a história do próprio basquete.

No último domingo, dia 10, ele completou 56 anos de atividades ininterruptas como radialista. Embora versátil e com experiência em diversas modalidades, narrar basquete é sua especialidade. Jovassi foi o protagonista da primeira transmissão internacional de uma rádio de Franca e percorreu o mundo acompanhando o Franca Basquete. Foram 36 viagens para o exterior e mais de 60 jogos, inclusive, a épica decisão do campeonato mundial disputado na Itália em 1975.
 
Em 2006, Jovassi recebeu da Federação Paulista o título de Comendador do Futebol. No ano passado, ele foi homenageado pela Aceesp (Associação dos Cronistas do Estado de São Paulo) por ser o radialista esportivo mais longevo em atividade. No evento, teve a história elogiada por ícones da profissão, como Galvão Bueno.
 
Reconhecido fora de Franca, o narrador abriu o coração nesta entrevista e fez um desabafo contra a direção do Franca Basquete.
 
Como foi o começo de sua história no rádio?
Eu trabalhava na Rasa (Representação de Automóveis S/A) e vendia peças de automóveis. Era amigo do Amaury Destro, a gente estudava junto na Industrial. Iria acontecer os jogos Euclidianos em São José do Rio Pardo em abril de 1962. A rádio Difusora ainda não tinha sido inaugurada, mas já fazia alguns boletins com informações em caráter experimental. O Amaury me convidou e eu fui junto. O Carlos Augusto, que era o narrador, passou mal à noite e não tinha ninguém que fizesse basquete. Mesmo nunca tendo contato com microfone antes, o Amaury insistiu para que eu narrasse o jogo e acabei aceitando. Naquela época, tinha sido disputado no Brasil o mundial de basquete, o Brasil foi campeão, e eu havia acompanhado pela rádio Bandeirantes, com a narração de Fernando Solera. Eu imitei o Solera e deu resultado. Comecei por acaso. 
Embora você também narre jogos de futebol e outros esportes, o basquete é sua marca registrada?
Sim, o basquete é meu forte porque eu comecei por este esporte. Sempre gostei de basquete, está no meu sangue. Já fiz coisas pelo basquete que até Deus duvida, mas é uma pena que o basquete não reconhece. O meu desabafo é este: nunca reconheceram o que fiz pelo basquete de Franca.
 
Você pode dar um exemplo?
Sempre me trataram mal, nunca trataram bem. O basquete nunca reconheceu meu trabalho. Não quero ser homenageado depois de morto. Morreu, morreu. Rua Jovassi Correa Dias! E daí? Não vou passar nela. Eu acho que o basquete me deve muito. Sempre falo para as pessoas: o público que vai aos jogos do basquete hoje, o filho está indo porque o pai levava, eu fazia o pai ir. Ninguém nunca fez jogos igual eu fiz. Eu fiz 36 jornadas esportivas internacionais, que totalizam 63 jogos. Narrei jogos de basquete na Argentina, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Equador, Itália, Iuguslávia e Espanha. Fazer basquete hoje, com as facilidades da tecnologia, é muito fácil, tem tudo na mão. Uma vez em La Paz, eu e o Rui Pieri tivemos que esticar 500 metros de fio para poder fazer um jogo, pois não tinha linha de transmissão no ginásio.  
 
Qual é o sentimento por não ser reconhecido pela direção do basquete?
Vou seguindo minha vida do jeito que sempre fiz. Sinto mágoa, sim, pelo basquete não reconhecer tudo o que eu fiz. O passado precisa ser respeitado. A falta de reconhecimento não é só comigo, não, é com muita gente: Juca Vilhena, Gibaile, Pedroca, entre outros. O pessoal passa por cima. A memória do francano é curta. Tinha que ter uma estátua do Juca Vilhena e do Pedroca no Poli. O basquete não valoriza a sua história. A nossa história é absurda de grande, pena que só é reconhecida fora. Não quero nada, já passou, esquece. Há tempos eu queria fazer este desabafo, mas a minha família não queria deixar. Hoje, depois de tudo o que fizemos, o basquete de Franca omite informações para nós, sabe por quê? Porque eu não concordo com o que está aí. Eu tenho direito de dar minha opinião. Deram um time na mão do Lula, um fragote. Deram na mão do Helinho, um Boeing. O Boeing caiu. Há 19 anos, Franca não ganha um Brasileiro, dez anos não ganha um Paulista. O Bauru nos varreu na última edição do NBB por três a zero jogando com o time reserva. Para mim, não somos mais a Capital do Basquete, pois não estamos ganhando nada.
 
Por que o basquete não está ganhando nada mesmo com a estrutura que tem?
Houve muita precipitação. O basquete começou a mudar demais. Hoje, de Franca, só temos o filho do Edu Mineiro no time. Estava o Léo que foi embora. Não tem mais a raiz do basquete de Franca. O bom de Franca eram os três metralhas: Hélio Rubens, Totô e Fransergio. Depois, vieram Anjinho que veio de Uberaba para cá, Heraldo, Carraro, Carrarinho, Rosalvo, Raimundine. Hoje, a molecada não tem mais o objetivo de jogar em Franca. Joga aqui e vai embora. Estão perdendo a relação com o nosso basquete. Sempre fomos campeões com uma base feita em Franca. Também, não é colocar qualquer um não. Temos três meninos muito bons: Didi, o Gui Abreu que não jogou nenhum jogo nos play-offs e o Cassiano. Tem que colocar essa molecada para jogar mais.
 
O elenco do Franca está passando por uma reformulação. Você defendia mudança no comando técnico?
Não. Agora, vai acontecer o que eu sempre defendi: o Lula vai ser o diretor-técnico junto com o Helinho no banco. O Helinho pegou um rabo de foguete. É um menino bom, educado e gente finíssima, mas está imaturo para dirigir um time do tamanho de Franca. O que seria o ideal quando Franca mudou? Lula técnico e o Helinho como assistente por uns dois anos. Essa experiência seria fundamental para ele, mas houve precipitação da diretoria. Agora, com o Lula do lado dele, a tendência é que o Helinho melhore. Ele é muito paizão. No esporte, é preciso dar murro na mesa. Quando o Hélio pai passava a mão no bigode e batia a mão na perna, o jogador sabia que vinha porrada. Ele mandou para o vestiário o Dexter, o Vargas. Não tinha este negócio, não. Não obedeceu, está fora. 
 
Você tem noção de quantos jogos transmitiu ao longo da carreira?
Eu não marquei não. Franca conquistou 267 títulos. Uns 200, eu transmiti. Fiz coisas inacreditáveis para poder narrar. Viajavam dez jogadores dentro de uma Perua Kombi e eu ia deitado no bagageiro.
 
Qual foi a transmissão inesquecível?
A melhor para mim foi no campeonato mundial de 1975, na Itália. Franca ganhou do Real Madrid por um ponto na última bola. Tenho a gravação do lance. Foi uma cesta do Hélio Rubens, aquele momento ficou marcado. Foi a primeira transmissão internacional de Franca e do interior do Estado. Quando fui pedir a linha na Embratel para fazer a transmissão, o cara não acreditou. Foi uma coisa de louco. A cidade parou para ouvir. A Difusora reprisou o jogo depois e a audiência voltou a ser enorme. Fomos vice-campeões do mundo. Perdemos o título por um erro nosso.
 
Como avalia o momento atual da Francana?
A Francana nunca acertou como está acertando. De 20 anos para cá, a Francana se arrebentou, desmoralizou totalmente. Quando a atual diretoria assumiu, o time caiu e ficou um ano sem disputar o campeonato. Eu fui contra e fiquei bravo com o presidente Anderson, mas ele tinha razão. Não tinha condição de tocar o time. Ele organizou a diretoria, conseguiu acertar um pouco das dívidas e não há mais penhora de rendas no estádio como acontecia em todos os jogos. O time é muito bom e está no caminho certo. Gosto tanto da Francana quanto gosto do basquete.
 
Você é o radialista que está há mais tempo em atividade no País?
No ano passado, eu fui homenageado pela Aceesp pelos 55 anos de rádio que eu tinha na época. Estavam lá o Galvão Bueno, o Cléber Machado, o Caio Ribeiro, enfim, só a nata e eu no meio. Fiquei emocionado, pois todos falaram a meu respeito, conheciam minha história. 
 
Pensa em se aposentar?
Aposentado eu já estou, mas não quero parar. Só vou deixar o microfone quando a rádio falar que não dá mais, que minha voz não está colaborando e que o pique já não é mais o mesmo. Vou até quando o homem lá em cima quiser.
 
O que representa para você narrar e contar histórias no rádio?
Eu fico emotivo. Tenho 76 anos, duas bisnetas, três netas, já viajei o mundo inteiro e cada jogo que eu faço, eu ainda me sinto emociono. É muito bom reencontrar velhos amigos nos estádio e ginásios. Isso que é importante para mim, me sinto valorizado, me sinto vivo. Sou realizado como radialista. Tive várias propostas para deixar Franca e trabalhar em grandes rádios de São Paulo. Minha esposa era diretora de escola e filhos pequenos e eu fiquei com medo de ir. A verdade é esta: fiquei com medo. Não me arrependo. Fiz tudo o que eu queria em Franca e a cidade me aceitou.

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