O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mesmo preso na carceragem da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR), há pouco mais de dois meses, deu nessa sexta-feira um passo que pode ser determinante nas eleições de outubro. Mesmo insistindo em sua candidatura - num afronto absurdo à Lei da Ficha Limpa, que proíbe condenados em segunda instância de disputar um cargo eletivo -, Lula orientou seus correligionários a não baterem no candidato do PDT ao Palácio do Planalto, Ciro Gomes. A orientação é para uma suposta aliança no segundo turno, mas aparenta representar muito mais.
Para o líder petista, condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, ele é um injustiçado e, por isso, mantém-se como “candidato da esperança”. Ao mesmo tempo, orientou os petistas a firmarem um pacto de não-agressão com Ciro Gomes e o tratarem como aliado. As movimentações de Lula denotam que até ele não confia na concretização de sua candidatura. Os discursos de injustiça deverão ser levados às últimas consequências. Mas com a Justiça Eleitoral barrando Lula e sem um nome dentro dos quadros petistas para substituí-lo, a aproximação ao ex-ministro de seu primeiro governo parece ser o caminho possível ao partido.
Em manifesto enviado a cerca de 2 mil militantes que participavam do ato de lançamento de sua candidatura à Presidência da República, em Contagem (MG), Lula disse ter o apoio do povo. “Tive muitas candidaturas em minha trajetória, mas esta é diferente: é o compromisso da minha vida. Quem teve o privilégio de ver o Brasil avançar em benefício dos mais pobres, depois de séculos de exclusão e abandono, não pode se omitir na hora mais difícil para a nossa gente. Sei que minha candidatura representa a esperança, e vamos levá-la até as últimas consequências, porque temos ao nosso lado a força do povo.”
Completa o discurso escrito afirmando acreditar na Justiça Eleitoral. “Sou candidato porque acredito, sinceramente, que a Justiça Eleitoral manterá a coerência com seus precedentes de jurisprudência, desde 2002, não se curvando à chantagem da exceção só para ferir meu direito e o direito dos eleitores de votar em quem melhor os representa.” Termina com recado aos partidos de esquerda, defendo a união, mas respeitando a autonomia de cada legenda e movimento social: “Tenho certeza de que estaremos juntos ao final da caminhada”.
Talvez esteja aí o recado - mesmo que inconsciente - de Lula a seus partidários sobre os rumos do PT nessa campanha. Mesmo tramando sua candidatura, mesmo buscando um vice, o líder maior da legenda autorizou o pacto com Ciro, hoje principal candidato da esquerda. Os petistas devem até registrar a candidatura do ex-presidente e fazerem campanha para ele, mas quando a Justiça acabar com o teatro, o caminho já estará pavimentado para embarcarem de vez na candidatura do ex-ministro.
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