O Instituto de Pesquisa DataFolha, em recente consulta telefônica feita aos brasileiros de vários Estados da Federação, apurou que a maioria absoluta da população apoiou o movimento grevista dos caminhoneiros, reconhecendo as precárias condições de trabalho dessa importante categoria profissional.
Porém, paradoxalmente, as mesmas pessoas consultadas, não aprovaram o atendimento pelo Governo Federal da pauta de reinvindicações dos caminhoneiros, temendo que com o acolhimento dela, haverá, inevitavelmente, aumento na carga tributária, além de forte impacto nos preços dos produtos, especialmente dos gêneros de primeira necessidade, pois o transporte, que já não é barato, ficará ainda mais caro.
O resultado da pesquisa, além de paradoxal é esquizofrênico, pois é evidente que por traz de todo movimento paredista, há uma pauta de reinvindicações que é a própria essência da greve. Portanto, racionalmente, se apoiarmos o movimento, temos que igualmente apoiar, como decorrência óbvia e natural desse apoio, a pauta de reinvindicações.
O episódio de agora que tanto transtorno trouxe aos brasileiros de todas as classes sociais, ratificou duas premissas que passam a ser indiscutíveis. A primeira, escancarou a fragilidade do Governo Federal que ascendeu ao poder através de um processo de impeachment, cuja legitimidade é até hoje contestada por muitos especialistas em Direito Constitucional.
A segunda é a do absoluto desacerto na opção feita pelo país, já há algum tempo, pelo transporte rodoviário de carga, praticamente esquecendo outros mecanismos de escoamento da produção, inclusive e especialmente o transporte ferroviário, como fizeram outros países.
Por outro lado, a greve dos caminhoneiros serviu também para comprovar que o país está nas mãos dessa categoria, sendo que ela, até pela utilização cada vez mais alargada das mídias eletrônicas, está absolutamente cônscia de que possui um grande poder de mobilização e persuasão, fatos que nos permitem profetizar que outros movimentos semelhantes possam ocorrer no futuro, com consequências imprevisíveis.
Setímio Salerno MiguelAdvogado Empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca
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