Paulo César Vieira Rosa, 54, é o que se pode chamar de um cigano da bola: cruzou o Estado e parte do País jogando futebol. Defendeu 21 times, inclusive do exterior. Viveu o auge a partir de 1989, quando explodiu no Santos e se transformou em Paulinho McLaren.
Foi artilheiro do Campeonato Brasileiro, disputou a Champions League, o mais badalado campeonato de clubes do planeta, e defendeu a seleção brasileira. Marcou 483 gols durante a carreira.
Após pendurar as chuteiras, pegou a prancheta e se tornou treinador de futebol. Estudioso e preocupado em sempre se qualificar, sonha um dia estar no lugar hoje ocupado por Tite. Voltar para a Europa também está nos seus planos.
O desafio do momento é fazer a Francana subir de divisão. Conheça um pouco mais de McLaren, o professor que também pretende pilotar aviões.
Qual é a origem do seu apelido?
O apelido vem de um jogo disputado sábado à tarde, na Vila Belmiro, entre Santos e Vitória da Bahia. Era véspera do GP do Brasil de 1991 e o Ayrton Senna havia feito a pole position. Ganhamos de três a zero e eu fiz o terceiro gol. Na comemoração, sai gesticulando como se estivesse dirigindo um carro de Fórmula 1.
Depois participei por telefone do programa Terceiro Tempo, apresentado por Milton Neves e falei com o Senna. Desejei sorte para ele e disse que iria mandar uma camisa do Santos. Ele disse que não precisava, pois iria correr com a do Corinthians. O Senna venceu a corrida no Brasil pela primeira vez. O Milton Neves disse que o meu gol deu sorte e passou a me chamar de McLaren, que era a escuderia de Senna. Formamos um dobradinha de sucesso: nas manhãs de domingo, o Senna ganhava e, à tarde, eu marcava gols. Fui o artilheiro do Campeonato Brasileiro naquele ano. O apelido remete a um tempo saudoso e gostoso da minha carreira.
Conheceu o carro que deu origem ao seu apelido?
Conheci, sim, é uma máquina. A gente, que vê de longe, nem imagina como um piloto consegue dominar um carro daqueles. Para nós, parece que os pilotos fazem ficar fácil, mas é muito difícil guiar em alta velocidade. Não cheguei a guiar o carro, só entrei.
Você não pilotou de carro, mas quase se tornou piloto de avião. Como foi essa experiência?
Comecei a fazer o curso de piloto privado já que a gente voava muito. Tive a oportunidade quando jogava no Cruzeiro e o time só se deslocava em voos fretados. O piloto da empresa que servia o time tinha jogado futebol, conversava muito comigo e sempre falava da experiência que é voar. Ele me incentivou a fazer o curso para apreender o que é uma aeronave. Comecei a fazer, mas não terminei. Não tenho o brevê, mas tenho todo o conhecimento das cartas náuticas e noções básicas. Sempre estava nas cabines, mas não cheguei a pilotar. Ainda penso em concluir o curso.
O McLaren jogou por quantos times? Tem o número na mente ou é preciso pensar?
Acho que foram 21 clubes na minha carreira. Comecei no Bandeirante de Birigui, onde meus pais residem. Meu maior voo foi sair de um clube pequeno e disputar um Campeonato Brasileiro de Juniores pela seleção paulista, em 1982, quando fui campeão. Foi quando o sonho de me tornar jogador conhecido começou a virar realidade. Ao longo da carreira, enfrentei muitos percalços, não foi tão simples. Quando você começa a jogar em um time grande, as oportunidades de se destacar são maiores. Depois, viajei o mundo todo jogando futebol e tive uma experiência muito rica para a minha vida.
Como foi sua passagem pelo Santos?
Em quatro anos jogando pelo Santos, fui artilheiro do Campeonato Brasileiro e do Campeonato Paulista. Tive a oportunidade de sair 19 vezes do Brasil e conheci a história do Santos contada mais pelos estrangeiros, principalmente, na Europa, que viram o Pelé, o Coutinho e o Pepe jogarem. A história do Santos passa por eles. Não conquistei nenhum título, peguei um momento muito ruim do Santos em todos os sentidos, não só economicamente, mas um time sem muita estrutura, mas era uma camisa fantástica. Sempre falo com os garotos aqui: Em quatro anos de Santos, sem um título, tenho lá o meu rosto pintado no Centro de Treinamentos do Santos. É muito especial, é um orgulho para mim, mas é fruto de muito trabalho e de muita entrega. Foi onde tudo aconteceu para mim. Dali, saí para a seleção brasileira, fui jogar no Porto, tive a oportunidade de jogar a Champions League, conheci um futebol de alto rendimento, com outra visão, com outra perspectiva. Desde a passagem pelo Santos e a ida para o Porto, foi onde as coisas mudaram na minha cabeça, na maneira de enxergar o futebol, de me preparar para ser um atleta, para ser um treinador. O Santos foi especial e tem importância grande na minha vida.
Como foi a experiência de defender a seleção brasileira?
Tive três convocações, sendo duas quando estava no Santos e uma pelo Porto, para os jogos do Brasil contra a Bolívia e Venezuela pelas eliminatórias da Copa. Dias antes de uma partida, joguei uma final da Super Taça de Portugal entre Porto e Benfica, marquei o gol do título e acabei machucando o joelho. Tive que passar por cirurgia e fui cortado. Eram os dois últimos jogos das eliminatórias para a Copa de 94. Sei que nada acontece por acaso, mas foi uma pena não ter podido responder àquela convocação, pois existia possibilidade de permanecer no grupo e jogar um mundial.
Ficou frustrado de ficar fora da Copa e de não se tornar um tetracampeão?
A frustração é por isto. Ser campeão do mundo é algo especial, mas não tenho mágoa. Às vezes, tem desvios no percurso e você tem que aprender com isto. Me tornei melhor depois deste momento. A entrega para ser um atleta de alto rendimento é muito grande, a cobrança e a renúncia para se manter no alto são enormes. Depois, tive passagens maravilhosas pelo Internacional, Cruzeiro e Portuguesa, equipes que consegui destaque.
Você também teve passagem pela Arábia Saudita...
Sim. Em 2013, já como treinador, dirigi o Al Ta’ee por nove meses. É especial trabalhar fora do País. Jogamos contra o time que o Fábio Carille está indo agora. Foi uma experiência fantástica. Depois, retornei ao Brasil e tive convite para dirigir outro time lá, mas não era um campeonato inteiro e não fui. Ainda penso no mercado externo. Tirei uma licença internacional, fiz o curso na CBF Academy com treinadores de renome e me preparei para isto.
Como está sendo a experiência de treinar a Francana?
Encontrei um terreno bastante fértil aqui em todos os aspectos, principalmente, fora de campo. O grupo que faz a gestão da Francana tem um interesse muito grande de subir de divisão. A equipe está preparada para subir e tem uma estrutura que atende à serie A-3. O grupo está muito bem montado, com jogadores de qualidade. Tenho a experiência de já ter subido com três times e tenho trabalhado a questão emocional, de ter mentalidade vencedora. Quero ser a ponte que liga os jogadores a um futuro especial. Tenho que conduzir a equipe de uma maneira bem competitiva. A resposta tem sido boa e estou muito contente. É trabalhar a parte de querer mais e já buscando um perfil de segunda fase, onde a equipe tem que ser equilibrada e os erros terão que ser menores. Tenho usado uma regra com os jogadores: falo para eles todos os dias que temos que ir além do medo. Além do medo, tem a taça, o papel picado caindo na cabeça, tem grandes contratos. Espero levar a Francana o mais longe possível. Temos que sonhar e buscar metas para chegar ao lugar que todos almejam. Sempre falo para os jogadores que nós estamos mais próximos da Champions League do que quem está sentado no sofá de casa. Os resultados positivos abrem portas rapidamente. Passo importante é conquistar um título. A Francana não pode pensar menor do que isto.
Qual é seu sonho como treinador de futebol?
A maior referência de um atleta e de um treinador é a Seleção Brasileira. Não posso projetar ser menor do que isto. Talvez, a gente não alcance, mas este tem que ser sempre o nosso ideal. Sonho com uma Champions League, com uma Premier League, que é a maior liga do mundo, a liga inglesa. Lógico que, para isto, é preciso um preparo maior. Penso em tirar uma licença da Uefa para ter uma equivalência em relação aos treinadores que estão no topo do mundo. Não me frusto com algumas coisas que não acontecem, mas me preparo para o caso de, se acontecer, eu esteja pronto. Penso em voltar para o mercado externo em curto espaço de tempo, mas com os pés fincados no chão. Nosso trabalho nos faz sonhar bastante.
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