A escolha errada de há 90 anos


| Tempo de leitura: 3 min
Quando começou a aposta em rodovias, teve início o caos eclodido agora
Desde as crises econômicas do final da década de 1980 - há 30 anos, portanto -, o Brasil não vivia um desabastecimento tão grande como o que vivenciamos agora. A origem do caos, todos sabem, é a greve dos caminhoneiros. Eles protestam contra a disparada no valor cobrado pelo litro do óleo diesel, decorrente da nova política de preços adotada pela Petrobras, em julho de 2017. Diesel e gasolina têm seus preços reajustados quase que diariamente de acordo com a cotação internacional do petróleo e do dólar. Ficamos sem combustível, sem gás  de cozinha, sem diversos alimentos e outros tipos de produtos, porque a produção brasileira é escoada praticamente toda pelas rodovias, porque lá na longínqua década de 1920 nossos governantes resolveram apostar em rodovias e, no final da década de 1950, esse processo foi intensificado, em detrimento do transporte ferroviário. Somos reféns das rodovias e, 90 anos depois, estamos nas mãos dos caminhoneiros.
 
Washington Luís, o ex-prefeito de Batatais no final do século XIX, foi governador do Estado de São Paulo no início da década de 1920. Seu lema era “Governar é abrir estradas”. Investiu na construção de rodovias pelo território paulista. Foram mais de 1,3 mil quilômetros. Anos depois, assumiu a presidência da República e levou sua política a todo o País. Mas foi no final da década de 1950, quando Washington Luís morria, que o então presidente do Brasil Juscelino Kubitschek levou a termo a expansão das rodovias. As ferrovias, originadas na necessidade de os produtores de café escoarem sua produção, foram abandonadas. A política do “50 anos em 5” almejava a industrialização do País. JK construiu Brasília, construiu estradas até lá. Queria atrair as montadoras de automóveis para o Brasil. Mas para termos carros, era necessário termos as vias para eles rodarem. Daí os motivos de chegarmos onde estamos.
 
Pagamos por apostas equivocadas que se arrastam há quase um século. O transporte brasileiro é caro porque não é moderno, apesar de as rodovias e caminhões estarem carregados de tecnologia. Os caminhoneiros sabem do poder que detêm e, por isso, cobram o reconhecimento de seu valor. O caos implantado em todo o Brasil neste maio de 2018 deve-se também a políticas populistas de controle de preços dos combustíveis - de Lula da Silva e Dilma Rousseff - e à corrupção que quebraram a Petrobras. Deve-se a um governo - o de Michel Temer - que não tem apoio popular e, agora, nem parlamentar; que ignorou os apelos dos transportadores e, quando resolveu ouvi-los, escancarou no pacote de bondades, mas que de nada adiantou.
 
Enquanto os caminhoneiros lutam pela redução no preço do óleo diesel, os brasileiros aderem aos protestos sem saberem ao certo, como em 2013, contra exatamente o quê. Até porque quem pagará a conta, de acordo com a proposta de Temer para acabar com a greve, será a própria população. Penalizada pelas políticas nacionais há mais de um século, a Nação brada pela desesperada necessidade de apenas bradar.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários