Um discurso que só inflama


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NÃO É PEITANDO OS CAMINHONEIROS QUE TEMER DARÁ FIM À GREVE E EVITARÁ O CAOS
O presidente Michel Temer (MDB) anunciou nessa sexta-feira o uso das Forças Armadas para desobstruir as estradas ocupadas pelos caminhoneiros que, desde a última segunda-feira, em greve, protestam contra o aumento no preço do óleo diesel. O pronunciamento do presidente se deu cerca de 16 horas depois de o governo federal ter chamado a imprensa para comunicar a proposta de um acordo para o fim do movimento. O documento foi assinado por entidades representativas da categoria, mas não surtiu efeito. O controle sobre a greve saiu das mãos dos sindicatos, e os caminhoneiros deram mostras de que não estão dispostos a aceitar passivamente os termos da negociação. Tanto é que às 13 horas de ontem, Temer anunciou o uso da força para acabar com os bloqueios e, num discurso mais inflamante que pacificador, disse que uma “minoria radical” permanecia em protesto. O emedebista parece ter jogado combustível no fogo. A reação do presidente da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros), José da Fonseca Lopes, foi a afirmação: “Ninguém vai conseguir tirar o caminhoneiro. Vai correr sangue nisso aí”.
 
Sem capital político, sem a simpatia de praticamente toda a Nação, Temer vale-se do poder constitucional que o cargo lhe confere para tentar dar um fim na maior crise que seu combalido governo enfrenta. O presidente cedeu - e muito - aos caminhoneiros. Segundo o próprio governo, 12 reivindicações foram acatadas para uma trégua de 15 dias. Os termos do acordo foram fortemente criticados por economistas. Dizem que não há de onde tirar dinheiro para diminuir o preço cobrado pelo diesel. Quem pagará pela benevolência de Temer será o povo. Mas, mesmo generosa, a proposta não foi aceita. O que o presidente parece não entender é que os caminhoneiros querem mais. Minutos após o anúncio, o acordo foi contestado por transportadores de Norte a Sul do País. Eles querem respeito.
 
No início da noite de ontem, ministros de Temer afirmaram que os bloqueios tinham diminuído em 45%. Mas resta a dúvida quanto aos números oficiais. O que se viu foi a permanência de caminhoneiros nos protestos. Em Franca, a categoria ganhou o apoio de motoristas de van, durante a manhã da sexta-feira, e da população, durante a noite. Nas duas oportunidades, carreatas partiram de frente ao Parque “Fernando Costa” rumo ao posto Paineirão, na rodovia Cândido Portinari, onde 500 transportadores estão “acampados”. O mesmo se repetiu por praticamente todo o país.
 
O caos decorrente da greve se aproxima. E o que Temer não entende é que sua maneira de agir está totalmente obsoleta. No mundo moderno, as pessoas exigem o que lhes é por direito. O paternalismo, com ameaças e assistencialismo, ficou enterrado no século passado. Não é peitando os caminhoneiros que Temer dará fim à greve e evitará o caos.

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