'A ansiedade é a doença do século', afirma médico


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Já são 13 anos de dedicação, estudos e atendimentos na área da neurologia e medicina do sono. O médico francano Alexandre Martori, 41, se traduz como um homem apaixonado por sua profissão. Martori se formou em 2000, pela Famefa (Faculdade de Medicina de Marília). Depois, decidiu fazer a residência médica em Neurologia e Neurofisiologia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Concluiu a especialização cinco anos depois e daí em diante continuou com os estudos e obteve os títulos de Especialista em Neurologia pela Academia Brasileira de Neurologia e em Medicina do Sono pela Sociedade Brasileira de Sono. Fez mestrado em Neurologia pela FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) e ainda obteve um certificado de Atuação na Área de Medicina do Sono pela Associação Médica Brasileira. “Meu interesse foi direto nessas áreas, que têm sido cada vez mais procuradas por pacientes, e decidi investir”, explicou.
Hoje, Martori é um dos neurologistas mais conhecidos e renomados em Franca e região, além de ser professor do 3º ano de Medicina da Unifran. Sua Clínica do Sono, no bairro São Joaquim, é a única na cidade com estrutura para que pacientes possam dormir e realizar exames e análises voltados para a área da Medicina do Sono. É ali que são realizados cerca de 100 exames por mês - tanto de seus pacientes quanto aqueles encaminhados por outros médicos - e onde ele atende uma média de 400 pessoas por mês. 
Na semana passada, Martori recebeu a reportagem do Comércio em seu consultório, no bairro São Joaquim. Em meio às explicações acerca dos distúrbios de sono e qualidade de vida, o médico decretou: a ansiedade é a grande vilã.
 
Quais as principais demandas que o senhor recebe em seu consultório?
Além da parte de neurologia, há pacientes que procuram uma solução para a dificuldade de dormir. Geralmente chegam com um histórico de que não dormem há um tempo e que isso está refletindo em suas vidas.
 
Esses paciente o procuram depois de quanto tempo sem dormir? 
 Há quem diga que não dorme há três dias e, quando fazemos os exames, percebemos que, na realidade, a pessoa tem um sono superficial. Monitorando e analisando o ritmo cerebral vê-se que ela dorme, mas não percebe, acordando várias vezes durante a noite sem ver. Na maioria das vezes, os pacientes têm uma má percepção do sono. Em outros casos, os pacientes dormem pouco e acordam exaustos. Quando você não dorme bem, aparecem alguns problemas além do cansaço, como distúrbios de comportamento, indisposição, sonolência, irritabilidade, dificuldade de consolidar memórias e variações de humor. A apneia também é um sintoma. Trata-se daquele momento em que você pára de respirar enquanto dorme, tornando seu sono algo fragmentado, sem o estágio de sono profundo e sem passar por todos os estágios de sono. Durante esse período sem respirar, o coração desacelera e depois volta. A longo prazo, isso pode acarretar uma série de problemas de saúde.
 
Quais, por exemplo?
Além da insônia e desses problemas que vêm a curto prazo, a apneia pode virar um fator de risco cardiovascular, causando até infartos e AVCs enquanto o paciente dorme. Também notamos que, a longo prazo, quando a pessoa não tem apneia e não dorme bem, ela pode desenvolver problemas cardíacos, diabetes, aumento de peso, hipotireoidismo e outros problemas.
 
A tal regra de “oito horas de sono” para ter qualidade de vida é verdadeira?
É a média da população, mas não quer dizer que tenha de ser uma regra e que, se você dorme seis horas ou mais, está errado. O importante é ter qualidade de sono, não quantidade de horas. Se a pessoa dorme quatro, cinco horas por noite, mas se sente bem, não tem problema. Há quem tire um cochilo durante o dia e acorde com a energia restaurada. Não se desenvolve nenhuma doença por dormir pouco estando descansado. A grande questão é conseguir dormir bem.
 
Os distúrbios de sono de adolescentes e adultos são semelhantes?
Sim, apesar do fato de que adolescentes, por conta dos hormônios, precisem e realmente durmam mais. Uma das causas desses distúrbios é a tecnologia e os equipamentos eletrônicos. O celular, por exemplo, é um vilão e atrapalha o sono. O adolescente e nós mesmos, os adultos, utilizamos muito os aparelhos antes de dormir para assistir filmes e séries, mexer nas redes sociais, jogar... Tudo isso, definitivamente, atrapalha. Além disso, as preocupações do cotidiano também atrapalham e podem causar insônia e outros transtornos.
 
O mesmo acontece com crianças?
Atualmente, eu não atendo mais crianças, apenas adolescentes e adultos. Mas, no período em que atendi, pude perceber que muitos pais procuravam ajuda médica com a preocupação de que os filhos, pequenos, não dormiam. Pediam até remédios e eu não receitava. Isso não existe. Se um bebê ou uma criança pequena não dorme por horas, há algo de errado na casa. Pode ser barulho, a ansiedade dos pais, algum fator. Bebês chegam a dormir 18 horas. Então há algo de errado se eles não completam várias horas de sono ao longo do dia.
 
Como é possível se organizar para ter uma boa noite de sono?
É preciso entender que cama só serve para duas coisas: dormir e ato sexual, e é importante fazer o que chamamos de “higiene do sono”. Trata-se de seguir algumas dicas, como: só ir para o quarto na hora de dormir; não ter muito barulho e luz no ambiente; não levar comida para o quarto; evitar atividades físicas e uso de aparelhos eletrônicos perto do horário de dormir e não ingerir comidas pesadas e bebidas alcoólicas. Também não adianta nada ficar rolando na cama para tentar dormir. Só ficará mais agitado. Se não consegue, levante-se e vá para a sala ou outro cômodo. Assim que o sono chegar, vá para o quarto.
 
E quando, mesmo após adotar todas essas medidas, o paciente não consegue dormir?
Em casos mais extremos e em que as pessoas não conseguem, por mais que tentem, entramos com medicação. Gosto de tentar primeiro com fitoterápicos, como melatonina e valeriane, e orientar quanto à higiene do sono. Caso não resolva, há os outros remédios. No caso do Rivotril e remédios tarja preta, por exemplo, quando você não dorme, resolvem. Dorme-se muito. Mas o problema é que, quando se entra, dificilmente sai. Cria-se uma dependência e não é um sono de qualidade. Diminui a quantidade de sono profundo e a qualidade do descanso não é 100%. Por isso, o ideal é tratar o que causa a insônia. Muitas vezes, é a ansiedade. Tratando-a, conseguimos regular o sono do paciente.
 
A ansiedade é o maior problema da população?
É o mal do século. Antes, falava-se da depressão, que era a grande vilã. Hoje, vemos que é a ansiedade. Ela causa vários transtornos, incluindo os problemas para dormir. Precisa ser tratada e, às vezes, quando se toma um remédio para a ansiedade, acabamos também com o problema da insônia, por exemplo. Isso só é possível com tratamento e, quanto antes a busca por ajuda for feita, melhor.

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