Vidas que renascem das tragédias


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De tempos em tempos, somos surpreendidos positivamente por notícias de famílias, que no auge da dor da perda de um de seus membros, autorizam a doação de órgãos. Um gesto de generosidade ímpar que transforma a morte do familiar em vida para desconhecidos, numa espécie, também, de perpetuação da vida daquele que se foi. A doação de órgãos, porém, não deveria ser motivo de surpresa, deveria ser algo corriqueiro em nossa sociedade. Mas avançamos no caminho oposto, na radicalização da individualidade, do ódio sem limites - propagado principalmente pela internet - e na valorização das coisas em detrimento do ser. Vemos no outro, na maioria das vezes, um inimigo a ser batido. Daí gestos como o da família do comerciante Walber Cardoso Guasti, 40 anos, que morava no Jardim Noêmia, em Franca, nos causarem espanto, ao mesmo tempo em que renovam as esperanças de que, sim, ainda existe compaixão entre os seres humanos.
 
Vítima de uma queda acidental, durante um passeio a cavalo, Guasti foi internado no dia 28 de abril. Na madrugada dessa terça-feira, os médicos constataram a sua morte cerebral. Iniciava-se, aí, uma corrida contra o tempo, num trabalho, primeiro, de convencimento da família sobre a importância da doação e, depois, da logística para captação e transporte dos órgãos (leia a matéria na Página 7A). Nesses momentos de extrema dor para as famílias, mas de possibilidade de renascimento para milhares de brasileiros que aguardam a morte na fila do transplante, entram em ação verdadeiros anjos que fazem parte - no caso da Santa Casa de Franca - da Comissão Intra-hospitalar de Transplantes. Uma equipe multidisciplinar atua na busca de autorização junto aos familiares de pacientes com morte cerebral ou encefálica para a doação dos órgãos.
 
Na Santa Casa, a Comissão atua há mais de 15 anos. Neste período, foram captadas no complexo hospitalar 5.354 córneas, 170 rins, 84 fígados, 6 corações, 10 pâncreas e rins e ainda 8 ossos. Os números são de setembro do ano passado e, portanto, não contabilizam os órgãos de Guasti. Em Franca, a taxa de recusa, também em 2017, era de 33% - menor que a média estadual que girava em torno de 45%. Os profissionais que trabalham no convencimento das famílias afirmam que a falta de informação é a maior causa das negativas.
 
Ontem, o médico Ronaldo Honorato, cirurgião de transplantes do Incor (Instituto do Coração) de São Paulo, que veio a Franca com sua equipe captar o coração, o fígado, os rins e as córneas de Guasti, fez um pedido antes de deixar a cidade. “Por favor, doem seus órgãos. O importante é que a gente perpetue essa corrente do bem, essa corrente pela vida.” Que o exemplo da família do comerciante do Jardim Noêmia seja incentivo para que deixemos de ser surpreendidos por gestos como o deles.

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