O pintor desempregado Denny de Queiroz Pires, de 37 anos, acusado de matar e esquartejar a desempregada Ana Cláudia Abib, 40, em 2016, foi condenado a 9 anos e dois meses de reclusão pelo crime. A pena deverá ser cumprida em regime fechado.
A sentença foi proferida ontem, no Salão de Júri, quatro horas depois do início do julgamento, presidido pelo juiz Paulo Sérgio Jorge Filho. Composto por cinco homens e duas mulheres, o júri considerou Denny culpado por homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver. A qualificadora de feminicídio, acrescentada no processo pelo MP, conseguiu ser derrubada pelos advogados de defesa, o que ajudou a diminuir a pena.
Na condenação, a Justiça ainda considerou Denny como semi-responsável pelo assassinato de Ana Cláudia, por conta do uso crônico de drogas, fato que reduziu de 12 para 9 anos. Ele, que está preso desde dezembro de 2016, deverá continuar no CDP de Ribeirão Preto até que aconteça sua transferência para outro presídio. A defesa não descartou a possibilidade de recorrer da decisão. Já o promotor Odilon Nery Comodaro afirmou que a pena veio de acordo com o previsto pela lei. “Ele não tinha um histórico de violência e foi considerado semi-responsável pelo crime”, explicou.
‘Boa pessoa’
Em meio aos depoimentos e alegações, o advogado Geraldo Borges de Freitas Neto rebateu parte dos argumentos de Comodaro, e disse que o réu é uma “boa pessoa”. Geraldo também disse que o comportamento de Ana Cláudia machucou Denny. “O palco já estava pronto para a desgraça. Faltava só a personagem: Ana Cláudia, que falou coisas absurdas e ofendeu o menino (Denny). Ninguém tem sangue de barata.”
Em seguida, o advogado tentou justificar que não houve crueldade. “Não houve meio cruel. Ele passou o bisturi em seu pescoço só uma vez. Errou sim, cometeu um crime, mas Deus é tão grande que ele tem chance de perdão. Não somos nós, homens, que devemos colocar mais um fardo em suas costas”, disse.
Mesmo com esse argumento, o júri visualizou crueldade no crime, fato que ensejou a condenação do assassino por homicídio duplamente qualificado.
Promotor fala sobre crueldade; defesa usa ‘vício em drogas’
Por mais de uma hora, e com exibição de laudos e vídeos contendo depoimentos de testemunhas de acusação e defesa, o promotor Odilon Nery Comodaro defendeu a condenação de Denny de Queiroz Pires.
Apesar de enfatizar a dependência química do réu e falar sobre a pena que poderia ser reduzida em razão do acusado ser semi-imputável, Odilon falou sobre a crueldade do caso. “Não dá para alegar que ele não foi responsável pelo crime. Foi brutal. Temos de tomar cuidado, pois senão a vítima vira ré. O acusado entrou nas drogas de forma voluntária. Ele não foi irresponsável, tanto que deu detalhes de como cometeu o ato. Se não houve crueldade aqui, não houve em nenhum outro caso então.”
Após as alegações do promotor, foi a vez dos advogados Bruno do Couto Rosa e Geraldo Borges. O primeiro tomou a palavra e usou a dependência de drogas e um transtorno de personalidade antissocial de Denny como justificativas para o brutal homicídio.
Já o outro defensor falou sobre a personalidade do cliente, definindo-o como “boa pessoa”, e que não houve crueldade. (Leia mais no texto principal da página).
Família diz que réu era ‘amado e se perdeu nas drogas’
A primeira pessoa a prestar depoimento ontem, durante o julgamento, foi a mãe de Denny, que falou do vício do filho e personalidade. “Sempre foi muito amado, teve educação. Era honesto e trabalhador antes das drogas”.
De acordo com a testemunha, foram diversas idas e vindas de reabilitações, até o período em que morou nas ruas de São Joaquim da Barra. Quando retornou para Franca, estando ainda viciado, Denny conheceu Ana Cláudia.
Sua ex-mulher e uma das irmãs também foram ouvidas e seguiram a mesma linha em seus depoimentos. Ambas contaram que fizeram o possível pelo acusado, na tentativa de libertá-lo das drogas. Sua irmã, a pedido de um dos advogados, falou sobre a prisão. “Quando ele falou o que tinha feito, percebi que já não era mais meu irmão. Não acreditei que ele poderia fazer aquilo. Pensei que tinha ficado louco. Fiquei duas noites sem dormir. Eu não podia deixá-lo seguir com a vida. E sei que ele só fez isso pelo crack. Por isso denunciei”, justificou ela, bastante emocionada.
Acusado chora ao narrar como matou vítima
Por mais de 20 minutos, Denny falou aos jurados sobre sua relação com a vítima e como executou o crime. Além de afirmar que tinha um relacionamento conturbado com a desempregada, o assassino confesso disse que brigavam por drogas e que já havia batido nela. “Já tinha dado uns empurrões e tapa na cara. Brigávamos por drogas e não estava dando certo. Quis separar dela”.
Depois, o desempregado alegou, mais uma vez, ter sido “atacado” com deboche e sarcasmo por Ana Cláudia no dia do crime. “Começou a falar um monte de coisas e me provocar. Foi quando segurei o que tinha na mão e acertei ela. Não deu tempo de fazer nada. Tinha muito sangue. Fiquei olhando”, explicou, sem falar a respeito da acusação de que teriam mantido relações sexuais durante o crime. Além de alegar que ficou em estado de choque, chegando a chorar diante de todos, Denny disse que não queria matá-la, “apenas bater nela”. “Usei crack e apaguei. Quando acordei, vi que já era dia. Tive essa ideia de esquartejar, diminuindo o tamanho do corpo. E foi assim que fiz. Para isso, paguei uma corrida de táxi e falei para a pessoa que era uma cadela morta.”
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