O desabamento do prédio ocupado por famílias sem teto em São Paulo, na madrugada do dia 1º de maio, é o retrato fiel do desgoverno que impera no País. As chamas que consumiram a estrutura do edifício são análogas ao efeito corrupção que queima os cofres públicos. A queda da estrutura de metal e concreto se assemelha ao despencar do comprometimento de nossa classe política com a dignidade e bem-estar da população brasileira.
Engolido pelas chamas, o edifício Wilton Paes de Almeida, no largo do Paissandu, desabou e com ele levou a vida de pelo menos uma pessoa que tentava, segundo relatos de testemunhas, salvar moradores do local. Assim como este herói - que era resgatado pelos bombeiros e foi levado pela queda do prédio -, há outros três desaparecidos. O edifício, marco da modernidade na década de 1960, quando foi construído, pertencia à iniciativa privada até passar às mãos da União, como forma de pagamento de dívidas. Já foi sede do INSS e da Polícia Federal. Em meados dos anos 2000, foi abandonado e se tornou alvo de constantes invasões de movimentos de moradia popular. Transformou-se em uma favela vertical. Neste 1º de maio, era controlado pelo movimento LMD (Luta por Moradia Digna). No interior da decadente estrutura - luxuosa outrora -, 146 famílias ou 372 pessoas montaram barracos e dali, fizeram um lar - 25% desses moradores eram estrangeiros. Em pleno coração da capital financeira do País, o patrimônio histórico avaliado em R$ 21,5 milhões era desprezado pelo Governo Federal, seu dono. Tratativas, segundo a Prefeitura paulistana, estão em curso para que a propriedade fosse transferida ao município que, somente sendo o dono de fato, poderia tomar medidas para tentar retirar as famílias dali e a elas darem um destino digno. Mas o destino dessas pessoas foi o mesmo abandono do prédio. Abandono que assola milhares de cidadão na mesma região central de São Paulo. Abandono dos poderes constituídos que é a realidade de milhões de cidadãos brasileiros por todo o País. Em meio à tragédia, o típico jogo de empurra dos incompetentes teve início entre os governos municipal, estadual e federal.
Em uma atitude extremada de oportunismo e demagogia, o presidente Michel Temer (MDB) ousou aparecer no local da tragédia, ainda na manhã da terça-feira. “Não poderia deixar de vir. Afinal estava em São Paulo e ficaria muito mal não comparecer.” Afirmou ter ido oferecer toda a assistência necessária. Foi expulso por populares aos gritos de “golpista”. “Eu não me incomodo com isso, o importante era o gesto de autoridade.” O fato é que Temer poderia ter agido muito antes. Qualquer gesto agora é pura balela. O Estado brasileiro não tem comando, está falido. Assim como a construção no Centro da capital paulista, a principal cidade da Nação, nosso moral queima em uma montanha de ruínas.
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