Quem ouve os discursos raivosos do presidente Michel Temer (MDB) tem a impressão de que estão tentando o derrubar. O mandatário da República esbraveja aos quatro cantos que é “vítima de uma perseguição criminosa disfarçada de investigação”, patrocinada por membros da Polícia Federal, que ele mesmo comanda. O emedebista discursa como se dos próprios policiais dependesse seu futuro político. Temer, assim como qualquer outro cidadão que, por ventura, seja denunciado caluniosamente, deve defender a profunda e célere investigação para que sua inocência prevaleça. Qualquer movimento no caminho para tentar barrar a apuração das denúncias soa como uma autocondenação. Pior ainda no caso de um político detentor de cargo elegível às vésperas de uma eleição. As atitudes de Temer levam a crer que a única intenção dele é manter-se protegido sob o controverso cobertor do foro privilegiado.
Temer é investigado por irregularidades na edição do decreto dos portos que teria beneficiado as empresas Rodrimar e Libra, com a renovação de contratos. As apurações investigam os crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Temer, o MDB e seus amigos de longa data teriam recebido propina das empresas beneficiadas pela edição do decreto. A operação Skala prendeu o empresário e advogado José Yunes, amigo e ex-assessor de Temer; o coronel João Batista Lima Filho, amigo do presidente há 40 anos; o ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi (MDB), que foi presidente da Codesp (Companhia de Docas do Estado de São Paulo) e também é aliado de Temer; Milton Ortolan, assessor de Rossi; além de empresários. Todos já estão em liberdade. O vômito de Temer contra a PF, agora, veio após a divulgação de que sua parte na suposta propina teria sido paga em reformas de imóveis de familiares.
Da ira do presidente, veio a determinação do ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, para que se apure como a imprensa teve detalhes das investigações. “Como que a imprensa consegue essas informações? Eu duvido que a imprensa entre de madrugada, seja na PF, onde seja, para ter acesso a esses dados. Alguém naturalmente vaza esses dados”, discursou o presidente, horas antes da ordem do ministro. Mas se Temer quer se manter vivo politicamente, não é contra a PF que deve lutar. Seu maior inimigo é si mesmo.
O futuro mais recente do político Temer - deputado constituinte, um dos maiores congressistas da história recente do País, vice lançado à Presidência por sua incontestável capacidade de articulação política, atrelada à deficiência de negociação de Dilma Rousseff (PT) - não está nas mãos da PF. Temer depende única e exclusivamente do povo. Depende dos eleitores para ser reconduzido ao Planalto. Mas com 1% nas pesquisas de intenção de votos e com o discurso adotado recentemente, aparenta ter jogado a toalha.
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