'Jurei que levaria os assassinos do meu pai a júri'


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Rubiana Soares estava no terceiro ano da faculdade de Direito quando o pai foi assassinado
Rubiana Soares estava no terceiro ano da faculdade de Direito quando o pai foi assassinado
Rubiana Gabellini*
em depoimento ao jornalista 
Edson Arantes
 
Meu sonho era fazer Medicina. Ser psiquiatra era minha meta, mas por coincidência ou mãos do destino, meu pai achava horrível a possibilidade de me tornar médica. Ele falava diariamente que eu faria Direito, que era o sonho dele me ver formada e atuando. Comprei a ideia. Durante o curso, fiz pedagogia, pois amo estar em sala de aula.
 
Estava no terceiro ano de Direito quando tudo ocorreu. A morte foi brutal, violenta demais e eu jurei no caixão do meu pai que me formaria com louvor e iria até o final. Levaria os assassinos até o júri. Foi um período muito complicado, pois as investigações foram demoradas e claramente dava para ver que não eram só aqueles denunciados que estavam envolvidos. Era público e notório que havia um grupo, especialmente o vice e alguns empresários envolvidos. Houve momentos em que tive medo, eu era recém formada e já tinha nas mãos o processo complexo que representava justiça.
 
Advogar em causa própria não é fácil, mas eu lembrava de tudo o que ele representa para mim. Meu pai é meu tudo, meu maior exemplo em todos os aspectos. Olhava minha irmã, minha mãe e sabia que dependia só de mim. Chorei várias vezes debaixo do chuveiro para ninguém ver, ouvir, por medo de decepcionar meu pai e minha família, mas isso me tornava forte. Por mais que me humilhavam, mais eu sentia minhas forças.
 
Jurei no caixão do meu pai e um por um foi caindo. Fui vencendo cada júri com fé. Era só fé!
 
Graças a Deus tive minha irmã que me acompanhava. Em vários júris em Franca, apenas eu e minha irmã Larissa estivemos aí. Voltávamos sozinhas, mas vitoriosas. Acho que cumpri minha promessa.
 
Lógico que não acabou, pode haver recursos, o que quiserem. Estou pronta para lutar.
 
O amor incondicional independe de tempo. A justiça não depende de tempo. Estou viva e vou até o fim. Jamais vou me cansar em buscar a verdade do que aconteceu. Não é só honra, é fé, é acreditar que a impunidade não pude prevalecer. Eu luto pela punição de um grupo que ceifou a vida de um pai, de uma pessoa que era feliz e fazia a diferença pela alegria.
 
Estava no terceiro ano de Direito, mas tinha sonhos diferentes. Nunca havia imaginado que iria atuar em júri. Tudo mudou. Mudei planos, mudei a rota da minha vida e faria tudo de novo. Esse passado me fez forte. A cada dúvida, vinha a certeza que eu não poderia jamais perder a fé, mesmo que o tempo passava e muitos falavam para desistir e seguir minha vida. Não entendiam que era a minha palavra, a minha promessa. Sabe o que é fazer um júri e ter numa sala apenas um olhar conhecido? A Larissa, minha irmã. Eu me perguntava se as pessoas estavam esquecendo do meu pai.
 
Juro que jamais consegui entender como as pessoas deixam que o tempo minimizem o que sentem, ou como podiam deixar a impunidade reinar e se submeterem somente aos interesses. Eu não venci sozinha. Minha irmã Larissa estava comigo. Em alguns momentos estávamos até sem dinheiro. Dividíamos tudo no júri. No primeiro, tínhamos só o equivalente a gasolina e refrigerante. Mas as coisas foram mudando, trabalhávamos bastante e fomos nos estabilizando, sempre juntas.
 
Não é porque se passaram 19 anos. Ele vive dentro de mim. Ele é parte de mim e eu sou ele por inteiro. Me formei com muita luta. Não participei da comissão de festas porque não tinha recursos. Infelizmente, nem para convites, nem para o vestido, mas ganhei os convites para ir. A minha mãe nos sustentou com o salário de professora estadual, passamos muitas privações. Não tive festa de formatura, mas tinha o sonho de buscar justiça, não tinha recursos, mas tinha um ideal. Isso muda o ser humano, molda. Hoje, respiro mais leve. Lembro do passado como um pedaço muito triste e doloroso da minha história, mas acho que dei orgulho para o meu pai. Não tive adolescência direito nem juventude, mas tinha a fé e essa me acompanha. O papai está mais leve no céu.
 
 
* Rubiana Maria Custódio Soares dos Santos Gabellini é filha de Gilberto Soares dos Santos, o “Giriri”, que foi sequestrado e morto em outubro de 1998, quando era prefeito de Igarapava. Rubiana se tornou advogada para ajudar a condenar os assassinos do pai. Dos 13 denunciados, nove foram condenados, inclusive o então vice-prefeito, Sérgio Augusto Freitas, que foi condenado a 30 anos, em março, acusado de ser o mandante do crime. Rubiana atuou como assistente de acusação em todos os júris.

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