A história faz lembrar um roteiro de novela, mas é real e se desenvolveu dentro da Santa Casa de Franca, o maior hospital público da região. Na quinta-feira da semana passada, as gestantes Eliane Cristiane de Souza e Glaciela Martins se internaram para dar à luz. Os dois bebês nasceram no dia seguinte, em um intervalo de apenas 13 minutos. O que era para ser um momento especial para as duas famílias se transformou em longos cinco dias de apreensão. Por culpa de um erro interno.
A alegria deu lugar à preocupação quando os dois meninos Yuri e Kauã voltaram para os quartos. Negros, Eliane e o marido Genilson ficaram desconfiados. “Meu marido achou estranho porque o menino que recebemos estava bem mais branco, diferente do bebê que ele havia fotografado logo após o parto. Foi uma situação constrangedora, todo mundo ficou falando. Ele falou para a enfermeira. Ela foi conferir e, pelo nome que estava na pulseira, percebeu que as crianças tinham sido trocadas.”
Naquele momento, a família de Glaciela Martins também desconfiava que algo de errado teria acontecido na maternidade. “Minha irmã mandou a foto e eu comentei com minha mãe que o neném não se parecia com ela nem com o pai. O bebê era mais escuro do que a nossa família. Minha mãe também achou estranho, mas ficou por isso mesmo”, disse Sandkléa Martins. “Minha irmã ficou o dia inteiro com o bebê e deu mama. No dia seguinte, chamaram as mães numa sala cheia de médicos e disseram que, provavelmente, os bebês tinham sido trocados. Ficamos indignados. Foi uma irresponsabilidade muito grande”, completou.
Alertada do possível erro, a Santa Casa mandou realizar o exame de DNA para esclarecer as dúvidas. O resultado saiu segunda-feira e confirmou as suspeitas: os bebês haviam sido mesmo trocados. Só, então, as duas mães puderam ficar com seus filhos. Nos dias anteriores, elas foram colocadas no mesmo quarto enquanto aguardavam a resposta, mas não puderam desfazer a troca.
“A gente não podia pegar o neném uma da outra. Eles não deixaram a gente dar mama no peito, pois havia o risco de passar alguma doença. Eu chorava demais. É muito difícil ver o filho ali do lado e não poder pegar por culpa de erro dos outros. Não tinha como errar. Só nasceram os dois na mesma hora e em quartos separados. Um era branquinho e outro mais escuro”, disse Eliane.
As duas famílias disseram que vão registrar boletim de ocorrência e avaliam a possibilidade de processar a Santa Casa. Elas alegam que, se não tivessem desconfiado, o erro poderia ter passado batido.
Hospital diz ter constatado troca e avisado as famílias
Em nota, a Santa Casa admitiu a troca, demonstrada através das pulseiras de identificação, e classificou o erro como um procedimento pontual. “Verificado o ocorrido no momento da checagem, as famílias foram imediatamente comunicadas. Em virtude das famílias não aceitarem de imediato a situação, e para tranquilidade de todos, foi realizado o exame de DNA, confirmando a maternidade.”
O hospital diz que possui protocolos de checagem e segurança do paciente e que estes procedimentos detectaram a troca. “O assunto foi tratado com clareza e transparência junto aos familiares, que ficaram cientes de todos os acontecimentos.”
Em março, o Comércio publicou a história da sapateira Ana Paula Câncio, que move um processo contra a Santa Casa por uma suposta troca de bebês. O erro, segundo ela, teria acontecido em outubro de 2004, dias após ela dar à luz o seu primeiro filho. O bebê morreu oito dias depois. Não houve velório. Os pais alegam que não tiveram condições de ver o corpo. “Fizemos dois exames de DNA, ambos comprovaram que o bebê enterrado não é meu filho.” A Santa Casa alegou que o processo não foi concluído e que corre em segredo de Justiça.
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