Os animais têm vozes


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Francisca Júlia da Silva Muster, poeta brasileira, nascida em 1874 na  pequena cidade paulista hoje chamada Eldorado, e falecida no ano de 1920, na capital de nosso Estado, aos 49 anos, tinha preocupação com as crianças e escreveu para elas dois livros muito lidos pelas gerações passadas. O primeiro foi O Livro da Infância, publicado em 1899 (Faz muito tempo!) O segundo, Alma Infantil,  distribuído nas escolas públicas do estado de São Paulo em 1912. A intenção de Francisca Júlia era começar no Brasil algum tipo de literatura destinada às crianças, algo que até então não existia. Os dois livros traziam pequenos contos e versos simples na forma, com musicalidade e escritos na melhor linguagem. Como os do poema abaixo, onde ela usa o recurso da onomatopeia. Esta palavra, onomatopeia, significa o som das vozes dos animais. Recentemente, o escritor Marcelo Jucá (que ganhou importante prêmio de literatura chamado “Barco a Vapor”) explorou onomatopeias no livro O sapato-pato de Pablo, que conta a história de um menino que viaja com os pais para um hotel-fazenda e lá se encanta pelos animais que conhece, especialmente por um pato. Até que enfia o pé na lama e descobre um jeito diferente de se comunicar com a ave. Leia o livro, que tem bonitas ilustrações de Andreia Vieira, e leia em voz alta o poema de Francisca Júlia que tem por título Vozes dos Animais:
 
O peru, em meio à bulha
De outras aves em concerto,
Como faz de leque aberto?
— Grulha.
Como faz o pintinho, em dia
De chuva, quando se interna
Debaixo da asa materna?
— Pia.
Enquanto alegre passeia
Girando em torno do ninho,
Como faz o passarinho?
— Gorjeia.
E de intervalo em intervalo
Quando a manhã se levanta,
No quintal que faz o galo?
— Canta.
Quando a galinha deseja
Chamar os filhotes que aninha,
Como é que faz a galinha?
— Cacareja.
 
A rã quando a noite baixa,
Que faz ela a toda hora
Dentre os limos em que mora?
 — Coaxa.
E quando as narinas incha,
Cheio de gosto e regalo,
Como é que faz o cavalo?
— Rincha.
Que faz o gato, que espia
Uma terrina de sopa
Que fumega sobre a copa?
— Mia.
Com a barriga farta e cheia,
Que faz o burrinho quando
Se está na grama espojando?
-Orneia.
Para o sinal de rebate,
Aviso, alarme ou socorro,
Como é que faz o cachorro?
            — Late.
Para que as mágoas embale
Quando tresmalha, sozinha,
Que faz a branca ovelhinha?
 — Bale.
Em fugir quando porfia
À garra e aos dentes do gato.
Como faz o pobre rato?
 — Chia.
De pé a boca descerra
E alta levanta a cabeça,
Que faz a cabra travessa?
— Berra.
Cheia a boca de babuge
Do milho bom que rumina,
Que faz o boi na campina?
— Muge.
A pomba que grãos debulha.
Como faz, batendo as asas
Sobre o telhado das casas?
— Arrulha.
A voz tremida do grilo
Que vive oculto na grama,
A trilar, como se chama?
— Trilo.
Mas escravos das paixões
Que os fazem bons ou ferozes,
Os homens têm suas vozes
Conforme as ocasiões. 

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