O feito e o produzido


| Tempo de leitura: 2 min
Diz-se de nós que somos maus artesãos, paira sobre o artesanato brasileiro a alcunha de brega, ruim e rústico. Compramos objetos de utilidade questionável, que muitas vezes servirão à poeira na nossa casa ou na dos outros. A explicação remonta o reinado. Sérgio Buarque de Holanda nos justifica: maciça mão de obra escrava, escassez de artífice livre, desprezo pelo serviço manual impediram o aperfeiçoamento dos produtos. Raros foram os ofícios que perduraram numa mesma família por mais de uma geração. E o artesão, que um pouco se destacava, logo pretendia a nobreza. Tardiamente, mas em tempo, a comida alçou “o artesanal” a uma ótima condição. O produto, comida artesanal, amenizou a angústia da padronização da indústria, antes mesmo de se saber saudável.  
 
Uma portaria, de 12 de maio de 2005, estabelece que o produto artesanal deve genericamente obedecer aos requisitos de segurança alimentar, e ser produzido com características tradicionais, culturais ou regionais. Elaborado com o saber que se transmite de geração em geração, conforme a tradição cultural do lugar. A definição pouco ajuda o consumidor, pois ninguém carrega consigo um guia cultural. Mas a leitura dos rótulos dos produtos, uma praxe que deveríamos ter, ajuda muito! O produto artesanal não terá os aditivos químicos da comida industrial, não sofrerá transformações que desnature a essência do alimento. Fundamentalmente, deve ser produzido perto da gente. É o envase industrial, o transporte em longas distâncias e a permanência nas prateleiras dos supermercados que demandam uma enorme carga de conservantes. 
 
A cozinha é o local do artesão por excelência, porque só gente cozinha - e o artesanato tem no trabalho humano seu maior valor. Máquinas não cozinham, embora produzam nutrientes. A alimentação esteve todo o tempo envolvida com a história dos artesãos. Afinal, só com o advento de um artefato de mais ou menos dez mil anos – a panela – que, nós humanos, pudemos efetivamente cozinhar: a panela possibilitou a junção água e alimento.
 
Só o artesanal pode produzir sensíveis diferenças de produção e de sabor, só o artesanal é capaz de questionar a lógica do industrial. 
 
Encontro-me, ocasionalmente, no varejão, com um senhor que produz molho e tomates secos. Ele escolhe tomate por tomate, me explica quão maduros eles devem estar, mas sem que atravessem o umbral do muito maduro, o que poria tudo a perder. Faz seus produtos num dia, no outro os vende. Por experiência própria, sei que seus produtos duram cerca de dois dias na geladeira e, fora dela, nem uma noite. Está ótimo, sei que não há conservantes ali. Comparar isso a um molho de tomate industrializado, que ostenta a licença de portar pelos de ratos a cada 100gr de produto, não parece razoável. Assim como não é aceitável exigir uma alimentação artesanal sofisticada, que até pode contemplar a saúde, mas, inevitavelmente, sangra o meio ambiente.   

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários