‘O FACEBOOK ESCANCAROU QUE NÃO É TODO MUNDO QUE TEM A ÉTICA BEM NUTRIDA’
As mentiras disfarçadas de verdades são um dos grandes - se não o maior - males proporcionados pela revolução tecnológica. Com um simples aparelho de celular e acesso à internet, qualquer pessoa consegue disseminar notícias ou boatos pelas redes sociais. A democracia que impera no mundo virtual atrelada à falta de educação de usuários - para discernir o que é fato de fraude ou mesmo para voluntária e criminosamente propagar calúnias - põem em risco a democracia na vida real. Tanto é que autoridades das mais diversas partes do mundo, com apoio da imprensa - descarta-se aqui os pretensos e irresponsáveis autodenominados “jornalistas” - e das próprias empresas de tecnologia, lutam para combater esta braga que ganha espaço “livre” na internet. Essa suposta liberdade e garantia de impunidade, porém, é ilusória e tão falsa como as fake news. Diferente do mundo real, no virtual o usuário é monitorado segundo a segundo e todos seus passos, registrados. Apesar disso, até chegar ao seu propagador, a calúnia já fez um estrago imensurável.
A eleição do republicano Donald Trump para presidente dos Estados Unidos é exemplo típico de como as fake news ameaçam a democracia do mundo real. A partir de divulgações falsas nas redes sociais, a candidata democrata Hillary Clinton foi vendo seu favoritismo minar, culminando em sua derrota. As investigações para chegar aos autores e contratantes da propagação das mentiras ainda continuam, mas Trump já governa a maior nação do planeta há mais de um ano. No Brasil, não é diferente. E é temendo o poder de interferência nas eleições gerais de outubro que o Tribunal Superior Eleitoral se movimenta, na tentativa de abrandar o poder das fake news.
No lançamento de seu livro Como Sair das Bolhas, nessa quarta-feira, a jornalista e professora da PUC-SP Pollyana Ferrari afirmou que nem 3 mil agências de checagem dariam conta de driblar as fake news que vão chegar aos 140 milhões de brasileiros antes das eleições em outubro. Segundo ela, hoje existem apenas três no País. Para Ferrari, “o Facebook escancarou que não é todo mundo que tem a ética bem nutrida”. “Avançamos tecnologicamente, mas não eticamente”, sentencia a jornalista, defendendo que apenas a educação, que forme pessoas capazes de discernir o que é notícia realmente verdadeira de mentiras deliberadas, será capaz de amenizar os efeitos das fake news. O grande problema, nesse caso, é que as falsas notícias são mais saborosas e mais fáceis de digerir do que a verdade. Ficar com a mentira, em vez de buscar a verdade, é mais confortável - como pensa Leandro Beguoci, diretor da revista Nova Escola.
O debate eleitoral, sem dúvida, será pautado pelas fake news. Candidatos perderão precioso tempo, na curta campanha, desmentindo boatos. O que esperamos é que essa influência fique no debate e não macule o resultado.
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