'A primeira coisa que faço é tentar mexer a mão'


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Ela saiu de casa aos 10 anos e já fazia belos movimentos da ginástica artística. Representou o Brasil em quase todos os cantos do mundo. Ganhou medalhas, conquistou prestígio e foi aplaudida de pé. Em 2014, aos 25 anos, decidiu dedicar-se ao esqui aéreo para disputar os Jogos Olímpicos da Rússia.
 
Da leveza e saltos no ar da ginástica, Laís Souza foi para as manobras radicais na neve. Estava à espera de uma classificação na nova modalidade quando uma fatalidade arruinou seus planos e interrompeu sua nova carreira. Ela se chocou com uma árvore e sofreu uma lesão na coluna cervical durante um treino nos Estados Unidos. Ficou tetraplégica.
 
Desde então, não pôde mais fazer qualquer movimento sozinha. Até hoje, tenta recordar-se do que aconteceu. “Tenho poucas lembranças do acidente. Sei que perdi o controle e bati em uma árvore. Acordei depois, já no hospital, e recebi a notícia. Dois dias depois minha mãe chegou e ouviu dos médicos que, se eu não morresse entre 8 e 12 horas, não ia mais respirar sozinha, comer, nada”, contou. 
 
Laís contrariou as expectativas pessimistas dos médicos. Seu estado era gravíssimo, mas ela foi à luta e teve o apoio da mãe. “Ela dizia que isso não ia acontecer e íamos batalhar”. A ex-atleta, então, agarrou-se às poucas chances que tinha. Mesmo com indicativos de que seria uma lenta e difícil recuperação, não esmoreceu. Hoje, quatro anos após a tragédia, as coisas estão diferentes. Ela já praticou bocha, estuda Psicologia e percorre o País proferindo palestras, participando de eventos e conferências.
 
São palestras como a ocorrida na terça-feira da semana passada, no ginásio da Unifran, pela 17ª Jornada da ONG Caminhar, que bancam a maior parte dos gastos, tratamentos e o acompanhamento em tempo integral de seus cuidadores. Além disso, Laís conta com uma ajuda financeira do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) e da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve). 
 
E é também através de eventos como o de terça-feira, que a ex-atleta adquire forças e pode contar um pouco de sua história como ginasta e depois do acidente no esqui aéreo. “Assim, posso compartilhar experiências e aprender muito. É uma forma de conseguir superar o que aconteceu comigo”. Logo após a palestra que proferiu para diversos alunos da Unifran e interessados, Laís falou para a reportagem do Comércio sobre sua trajetória e lembranças. 
 
Conte-nos um pouco sobre sua rotina pós-acidente e o que gosta de fazer.
Faço fisioterapia quase todos os dias. Normalmente, quando não estou trabalhando ou fazendo palestras, levanto pela manhã, faço a sessão de fisio, tomo banho, depois vou à faculdade, estudo e vou encher minhas amigas (risos). Também passo um bom tempo com meu sobrinho, que é algo que gosto muito de fazer.
 
Para você, qual a importância de fazer palestras como essa na Unifran? Como seleciona o que vai dizer?
Nas palestras, conto minha história e experiências. Posso falar, mas também ouvir e aprender mais, o que faz com que isso seja muito importante para mim. Sempre busco trazer coisas diferentes nesses encontros, de acordo com meu emocional naquela semana e o que tenho de percepção de mundo. Pesquiso bastante sobre tudo e não decoro o que vou falar.
 
Você está cursando psicologia em Ribeirão Preto e sua história é inspiradora para muita gente, sendo um dos temas das palestras. Acha que a faculdade tem ajudado nesse processo e também a abordar sua trajetória de um jeito diferente?
Talvez. Venho aprendendo muito de modo geral na faculdade e através das palestras. Tudo é feito com muito sentimento, desde as postagens que faço nas redes sociais até as palestras. O feedback que recebo é muito bom. É o meu gás. Fico feliz ao ver mensagens de todo o País de pessoas contando suas histórias também. Fico mais contente ainda e emocionada de vê-las falando que conseguiram sair daquela situação. 
 
Qual foi a sensação de conseguir ficar de pé pela primeira vez, há um ano?
Foi incrível. Percebi que estava melhor fisicamente e que todo o esforço que fiz, bem como as tentativas, valeram. O profissional que estava do meu lado também ficou muito feliz. Foi muito bom olhar e estar na mesma altura de antes, com meu 1,61 (risos), olhar diretamente nos olhos da pessoa. É algo muito particular e foi diferente. Não há dinheiro que pague isso. 
 
Em suas entrevistas e nas redes sociais, você fala muito sobre o ‘pós-acidente’ e não aceitar bem o que aconteceu. O que te fez entender, se reerguer e ter essa garra e determinação?
No começo, foi muito complicado depender das pessoas e entender a razão de ter acontecido aquele acidente comigo. Hoje, sou apenas muito grata por tudo que tenho. Muito dessa superação veio com as pessoas que estão ao meu redor. Elas estão sempre sorrindo, fazendo alguma brincadeira para que tudo seja mais leve e me apoiando para que eu possa seguir adiante. Eu mesma faço piadas com as coisas. Tento deixar o ambiente tranquilo, pois a vida já é muito estressante. Acho que isso foi e tem sido fundamental para permanecer firme e entender o que aconteceu. Aliada a tudo isso, está a minha vontade de sair da cama todos os dias, fazer fisioterapia, transmitir e ter conhecimento e me superar. 
 
É essa lição de esforço e superação que você quer deixar para as pessoas que conheceram e acompanham sua história?
Não sei. Talvez seja. Por exemplo: sempre quis ser atleta e consegui. Depois, fui para o esqui e também alcancei. Tive o acidente e, agora, mais que nunca, continuo em busca de conquistar as minhas coisas. Acho que venho me surpreendendo e só tento aprender cada vez mais. Pode ser que a lição que fique seja essa e que nada se leva para o caixão além das experiências e ensinamentos adquiridos.
 
Ex-atleta, universitária e palestrante. Você tem algum sonho? O que vê em seu futuro?
Todos os dias, a primeira coisa que penso e faço, é tentar mexer minha mão. É um dos meus sonhos. Está um pouco distante, mas sempre tento. É uma das partes do meu corpo que sinto mais presente. Quero escovar meus dentes sozinha, tomar um banho por conta própria e conseguir fazer coisas mais particulares. Para o futuro, penso em gerar uma família. Também tenho vontade de montar uma clínica ou instituto, mas sei que preciso ter paciência. Espero conseguir e tenho batalhado muito para que tudo aconteça.

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