Nunca votei em Lula. Nunca fui simpatizante da forma como o PT faz política e do seu projeto de poder para o Brasil. Mas confesso que não fiquei feliz com a sua prisão, não por achar que ele não mereça a reprimenda penal, aliás, pelo contrário, pude, assistir ao julgamento do Tribunal Regional Federal em Porto Alegre e fiquei convicto da sua culpabilidade.
A tristeza é por constatar a fragilidade do ser humano frente ao poder. As pessoas, algumas vezes por ganância, acabam manchando uma vida de luta e uma trajetória de sucesso, difícil de ser explicada levando-se em consideração padrões normais de racionalidade.
Lula nasceu pobre, no sertão da região mais pobre do país. Estudou pouco. Foi para São Paulo, uma “selva de pedra”. Torna-se, como tantos outros, operário. Acidenta-se no trabalho e se transforma no maior líder sindical do país. Ajuda a fundar um partido, no início, comprometido com as causas sociais. Disputa e perde, depois de se eleger deputado, três eleições presidenciais. Se elege presidente na quarta tentativa. Se reelege e faz um governo com algumas realizações sociais inegáveis.
Mas de forma inexplicável, acaba se corrompendo por um apartamento tríplex no Guarujá, mesmo já vivendo uma vida confortável e sem privações, realidade muito distante daquilo do início da sua vida.
Hoje ele deve se perguntar se valeu a pena. Sem comparar os personagens e as trajetórias de vida, apenas os fatos, lembro o grande Rei Davi, aquele que tinha o coração segundo o coração de Deus. Ele marcou negativamente a sua trajetória, ao colocar Urias sozinho na linha de frente da batalha, com o propósito de vê-lo sucumbir, para ficar com a sua esposa Betsabá.
Porém Davi, antes de morrer, reconheceu a sua queda, confessou o seu pecado e suplicou o perdão do Criador (Salmo 51). Acho que chegou o momento de Lula parar de negar o óbvio, dispensar as defesas protelatórias e ineficientes de seus advogados (com todas as vênias) e reconhecer publicamente a sua culpa, pois assim agindo certamente receberá o perdão do generoso povo brasileiro, sendo certo que a voz do povo é a voz de Deus, pois reconhecer a culpa e pedir perdão são condutas próprias dos fortes.
Setímio Salerno Miguel
Advogado Empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca
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