Roberto Carvalho Engler Pinto estava em uma zona de conforto e numa situação muito privilegiada. Recebeu 122,5 mil votos nas últimas eleições, está exercendo o sétimo mandado consecutivo como deputado estadual. Considerado o dono do PSDB na região e influente no tucanato estadual, se preparava para mais uma campanha em que até os adversários admitiam que culminaria em uma reeleição tranquila.
Eis que aos 74 anos, e quando todos imaginavam que ele estava deitado em berço esplêndido, o deputado resolveu colocar uma dose de emoção na disputa. No começo da tarde de segunda-feira, o cenário político foi chacoalhado com a informação de que Engler tinha deixado o PSDB após 28 anos de militância.
A mudança afetou em cheio o partido, que era controlado por aliados de Engler, e também impactará nas legendas concorrentes que se preparam para disputar as eleições de outubro. O deputado conversou com o Comércio e falou sobre a repercussão que sua decisão causou.
A notícia da saída do senhor do PSDB caiu feito uma bomba no cenário político. Esperava toda essa repercussão?
De jeito nenhum. Foi uma surpresa para mim. Estive envolvido numa reflexão de foro íntimo e não estava necessariamente pensando na repercussão. Quando digo de foro íntimo, digo no que uma mudança como essa significa pra mim, como deputado, como homem público, se eu poderei ser ainda mais útil, ainda mais eficiente, se serei mais valorizado onde estou. Então, tamanha reação em Franca e na região foi uma enorme surpresa e diria que foi um boa surpresa, porque as pessoas estão conseguindo entender que foi uma iniciativa corajosa e coerente com o que eu acredito.
Muito se falou sobre os motivos que levaram o senhor a deixar o PSDB. Qual foi a razão?
O meu candidato a governador sempre foi, declaradamente, José Serra. Depois, ele anunciou que não participaria mais. Isto já foi um baque. Aí, eu transferi para o Aloysio, que também não quis disputar. Olhei para os quadros do PSDB e não vi um substituto para os dois. O partido insistiu no João Doria, mas eu já havia avisado a nossa bancada de deputados que ele eu não apoiaria.
Por que não?
Acho que João Doria é um homem sem história. O curto espaço de tempo de vida política dele foi decepcionante. Ele cometeu duas grandes traições. Primeiro, foi uma traição ao governador dele, Geraldo Alckmin, e, depois, uma traição imensa a 3 milhões de paulistanos (que votaram nele para prefeito). Essas atitudes não recomendam essa pessoa a ser governador do meu Estado.
O senhor considera João Doria um traidor?
Considero que o Doria cometeu duas grandes traições nessa pequena história que ele construiu na vida política. Isso não o recomenda, não sei o que ele pode fazer mais. Não vou classificá-lo como um traidor, não é bem isso, mas que ele cometeu duas grandes traições. Eu já tinha avisado nossa bancada. Aí vieram as prévias. Eu não trabalhei contra ele, isso não é verdade, apenas não votei nele. Não orientei o voto a outro candidato. Fui lá, votei e saí. Mais nada. O Doria foi ungido candidato do PSDB a governador do Estado. Aí eu fiquei numa saia justa. É aquela velha história: os incomodados que se retirem. Por uma questão de coerência, já que meu candidato a essa altura já era o Márcio França, optei por sair do partido.
Como foi deixar o partido onde ficou por 28 anos?
Não foi uma decisão fácil. É uma misto de sentimentos. Feliz por estar nascendo em outra casa onde fui muito bem acolhido. Isso alegra o coração da gente. Estou ao lado de quem acredito que poderá fazer um grande governo para o Estado de São Paulo. O Márcio França me surpreendeu muito positivamente. Suas propostas de investimento para a nossa região me animaram demais. Me senti valorizado por ele e por todo o partido. O Márcio me ofereceu a possibilidade de o meu trabalho ser mais eficiente, que é meu objetivo, minha obrigação. Não tenho que pensar em mim, tenho que pensar nas cidades que represento. Por outro lado, estou com o coração sangrando. Não é fácil para mim, precisa de muita coragem para tomar a decisão de deixar o partido que ajudei a fundar no Estado. Foram 30 anos de militância e tive que me desvincular de muitos companheiros. Passei dois ou três dias ligando para eles e não teve uma pessoa que dissesse que eu não deveria ter feito isso. Todos aprovaram minha decisão. Liguei, inclusive, para o Sidnei Franco da Rocha para me justificar. Disse a ele que não apoio e não voto no candidato que o PSDB ungiu. Por uma questão de coerência, tive que migrar para outro partido que apoiasse o meu candidato que é Márcio França.
O senhor falou da decepção com o Doria, mas também estava sentido com Geraldo Alckmin desde o episódio dos pedágios em 2016, quando romperam. Depois, houve a aproximação que nunca mais foi a mesma. Qual o peso da divergência com Alckmin na decisão de deixar o PSDB?
Não foi bem uma dificuldade com o Alckmin, mas com o pessoal ao seu entorno. O governador não reclamou comigo por conta do problema dos pedágios apesar de eu ter me empenhado para que ele não construísse as três novas praças de cobrança como havia previsto. As pessoas que o cercam passaram a ter uma política diferente comigo, de não receber, trancar a porta, não liberar emendas. Eu estava me sentindo um deputado sem eficiência. Não estava conseguindo chegar nos meus objetivos. Eu não estava satisfeito comigo porque não conseguia mostrar resultado. Não foi, de forma alguma, um problema com o governador, tanto é que ele é o meu candidato predileto à presidência da República. Não tenho nenhum dúvida disto. Claro que vou ouvir o que o PSB vai falar. Até acho, pelo o que tenho ouvido que possa estar rolando alguma coisa nos bastidores de composição em nível nacional. Eu não tenho dúvidas em afirmar, por tudo o que eu senti aqui, que o candidato do Geraldo Alckmin é o Márcio França. Isto realça minha fé de que o Márcio França vai ter uma caminhada ascendente que vai levá-lo a governador do Estado.
Como avalia o impacto que a mudança de partido vai causar em sua votação nas eleições de outubro? Isso preocupa o senhor?
Não me preocupa de forma alguma. Sempre digo que votos são consequências, não são causas do meu trabalho. Sei que estava em uma situação privilegiada, com uma votação garantida na região, mas não era eu que estava em jogo. Eram as cidades que eu represento que estavam em jogo. Tenho que fazer o possível e o impossível para satisfazer as expectativas das pessoas que votaram em mim e não das que vão votar. Voto é uma consequência. Liguei para várias pessoas e a minha mudança não teve reprovação. Elas entenderam os motivos que me levaram trocar de partido em benefício das cidades.
O seu ex companheiro de partido Adermis Marini será candidato a deputado federal. O seu novo companheiro, Doutor Ubiali, também. Com quem deverá formar dobradinha?
Respeito o Adermis e o Ubiali. Foi tudo tão rápido e ainda não tenho uma decisão. Parcerias não se fazem no tapa, elas são construídas por meio do diálogo e do entendimento. No momento, não posso afirmar nada do que vai acontecer em termos de dobradas. É assunto de segundo plano.
O senhor ainda sonha ser prefeito de Franca?
Este sonho já passou faz tempo. Sonhei um dia, tinha grande vontade de ser prefeito de minha cidade. Acho que tenho mais perfil de Executivo do que de Legislativo. Eu tentei ser prefeito e não consegui, pronto, acabou. A página virou. Hoje eu quero continuar sendo um parlamentar defendendo nossa região. A Prefeitura tem que ser para gente nova, o pessoal que vem por aí e que tem coragem de enfrentar o desafio que é administrar Franca, que não é fácil. Continuo afirmando que, qualquer pessoa que se sentar na cadeira de prefeito, eu estarei pronto para ser um instrumento a serviço do prefeito e da Franca. Basta me procurar.
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