O tempo agora é outro.
As expectativas diferentes.
A relevância tem prioridades mais prosaicas.
Prosaicas tais como estudar as estações do ano, admirar a chuva na janela, ser companhia do
velho cão, curtir os netos ou sobrinhos-netos, conversar com o vizinho ao lado, dar comida aos pássaros, aprender um idioma diferente, praticar o Tai Chi Chuan ou vestir aquele velho jeans e sair por aí com alma de menina.
Menina que aprendeu o difícil ofício do bom viver. Aquele recheado de doces ternuras proporcionado pelo convívio com os puros de coração. A que descobriu a fina arte de vadiar. Mas vadiar no bom sentindo da prática. Vadiar na contemplação daquele singular cotidiano feito de miudezas felizes e singelas gratificações, às quais não se tem como mensurar, mas apenas sentir e usufruir.
A que, parada no silêncio do jardim, consegue ouvir o riacho que marulha ao longe, o ciscar inaudível das galinhas ao lado, ou aquela que pela manhã, pacientemente, conta as gotas de orvalho nas folhas do gerânio na estrada. Do tempo da mulher-menina experimentar a paz que só a maturidade lhe concedeu e relegar ao abismo as tristezas que insistem em querer arrombar a sua porta. Mas não é mais tempo dela. A tristeza.
O tempo agora é outro. Tempo de ficar na janela vendo a vida passar, mas não por curiosidade tacanha, mas sim por grandeza d’alma; mesmo porque, mais do que nunca, faz se necessário justificar a celebre frase de Fernando Pessoa que dizia “ que tudo vale a pena quando a alma não é pequena.”
E neste outro tempo, a alma urge ser grande. Desta grandeza feita de desapegos irremediáveis, de humildade frente às mudanças e de aceitação frente à implacabilidade da vida.
Porque o tempo, o tempo agora é ouro velho, aquele de beleza antiga, polido com a excelência da artesã vivida, mas muito mais feliz, feito dia de festa e renovado pela liberdade que a vida agora exige!
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