Cicatrizes


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Se alguém vem me ensinar a andar de moto, a primeira pergunta que faço é: quantas vezes você caiu? Me mostra as cicatrizes. Deixa eu ver as rugas, as marcas do tempo? Eu busco a experiência de quem viveu na prática aquilo que ensina.
 
Em minha palestra O Meu Everest, digo que normalmente usamos sistemas formais para buscar conhecimento. Um livro, um filme, um site, um blog, uma revista... Sistemas formais são muito legais, mas têm uma limitação: não transmitem conhecimento implícito, só explícito. Você só consegue transmitir num texto aquilo que é possível codificar sob forma de palavras, desenhos ou gráficos. Num vídeo, só aquilo que a câmera captura.
 
Me lembro quando, séculos atrás, fui pela primeira vez visitar a Disney e no Epcot Center passei pela área que representava o planeta no tempo dos dinossauros. Fascinante, lindo, os animais estavam ali, se movendo... uma loucura! Pois sabe o que mais me impactou? O cheiro. A mudança de temperatura. A umidade. Eu havia visto fotos e filmes daquele lugar, mas não esperava pelo cheiro, pelo clima. Só quem visitou aquele lugar e sentiu o que eu senti poderá dizer que teve a experiência plena, visual, sonora e olfativa. Sacou?
 
Ler, assistir ou ouvir, é legal, mas não basta. Quem estuda o assunto, diz que ao longo da vida, apenas 25% do conhecimento que adquirimos é explícito. 75% são implícitos. Tem de botar a mão na massa, tomar o tombo, ganhar a cicatrizà
 
Um antigo livro de Joelmir Beting tinha um título que sempre me fascinou: Na Prática, a Teoria é Outra. Por isso, sempre faço uma recomendação: respeite quem tem experiência. 
 
Mesmo que a pessoa não fale 4 idiomas, não tenha diploma no exterior, não saiba mexer no tablet, não tenha canal no Youtube ou não faça ideia do que seja Dragon Ball, ela caiu com a moto. Aquela cicatriz vale infinitamente mais que essas suas teorias.
 
Luciano Pires
Jornalista, escritor, conferencista e cartunista

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