Com o nome cravado na história do esporte nacional e mundial, Vanderlei Cordeiro de Lima é bem mais que um ex-atleta olímpico: é exemplo de determinação, coragem e força de vontade. Nascido na cidade de Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná, é um entre sete filhos de um casal de lavradores, José Cordeiro de Lima e Dona Aurora Maria da Conceição Lima.
Foi registrado por seu pai no dia 11 de agosto, um mês depois de seu nascimento, cresceu em Tapira, também no Paraná, e quando pequeno sonhou em ser jogador de futebol e nem imaginava o que a vida ainda iria lhe proporcionar.
O ex-maratonista faz questão de deixar claro que a maior conquista de toda a sua carreira foi receber o reconhecimento como atleta. Em seu currículo, somam-se bronze olímpico em Atenas, inúmeras competições nacionais e internacionais, uma congratulação com uma das maiores honrarias do esporte mundial, que é a medalha Barão Pierre de Coubertin, e ainda fez história recentemente, quando acendeu a pira olímpica que marcou o início dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.
Vanderlei foi descoberto por um professor de educação física. No início, o que o atraiu para o atletismo era a possibilidade de conhecer outras cidades e lugares. A maratona foi uma modalidade que entrou na sua vida por acaso. E foi contando sobre sua carreira e história que ele iniciou o bate-papo organizado pela Acif. No último dia 9 de março, Vanderlei esteve na cidade para participar da 7ª Corrida Esportiva Alta Mogiana e conversou com a imprensa sobre sua carreira e momentos marcantes.
O que o esporte significa em sua vida? Desde o começo você achou que esse seria o seu futuro?
O esporte foi a ferramenta mais importante que tive em minha vida, ele transformou a minha história em todos os sentidos. Eu não nasci atleta, me tornei atleta. Um professor de educação física viu potencial em mim e me convidou para representar a escola em jogos escolares. E essa foi a motivação inicial para minha carreira, na verdade naquele começo eu nem estava focado no esporte em si e sim na oportunidade de conhecer novos lugares e novas pessoas, estava pegando carona no que aquilo poderia me proporcionar, sem pensar em ir muito longe. Conforme fui crescendo e percebendo que aquilo poderia ser a minha vida, passei a me dedicar muito, a minha vontade de vencer sempre foi muito grande. Claro que tive de abrir mão muitas vezes da minha família, sai de casa menor de idade contrariando meus pais... Eles não queriam que eu saísse de lá, pois tinham medo do que eu encontraria lá fora. Mas quando viram que era aquilo que eu queria, me apoiaram muito.
Foi muito difícil se tornar atleta?
Sou filho de uma família muito humilde e que trabalhava de boia fria. O esporte seria um meio de mudar a minha vida e da minha família. E foi a única oportunidade que tive, eu precisava provar para mim mesmo a minha capacidade, para que as outras pessoas pudessem acreditar em mim, no meu potencial. Me dediquei muito. No começo, foi muito difícil, se você colocar uns 20 ou 30 anos atrás, esporte nem era profissão. Quando eu comecei a correr, corria por troféu e medalha, não havia expectativa, mas eu tinha um sonho e todos os dias da minha vida, fui alimentando este sonho.
Qual foi a maior conquista de sua carreira?
Minha maior conquista ao longo da minha carreira é ter o reconhecimento das pessoas. Poder entrar nos lugares sendo respeitado, reverenciado e reconhecido por tudo o que vivi no esporte e durante a minha vida.
Qual a medalha que mais te marcou?
As pessoas sempre me perguntam isso e, sem dúvida nenhuma, é a minha medalha de bronze dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Aquela medalhinha lá é a minha história e minha vida. É toda a minha trajetória não só no esporte, como de tudo que sou hoje.
Seu sonho sempre foi ganhar uma medalha olímpica. Você esteve prestes a ser ouro em Atenas 2004, quando ocorreu a situação do irlandês que te atingiu. O que passou pela sua cabeça naquele momento?
Na hora, poderia ter respondido aquela atitude daquele homem com outra agressão ou até mesmo ter cobrado meus direitos depois com o Comitê Internacional. Mas aquilo tudo era meu sonho, era tudo muito maior que aquele momento e eu não poderia desistir. Tudo naquela corrida, até o quilômetro 35, que foi quando fui atingido por aquele homem, foi planejado. Fiquei por muitos anos estudando cada passo que daria naquele trajeto, só o incidente que não foi planejado. Eu estava muito focado e, sim, aquilo tirou minha concentração, mas me mantive firme. Ainda fiquei em primeiro lugar por um bom tempo da maratona, tinha alcançado aquela vantagem. Apesar de não ser a medalha de ouro, eu sabia que aquilo era grandioso e me sinto até hoje emocionado com o meu bronze.
Após aquele episódio, você foi aclamado como exemplo de perseverança, determinação e força de vontade. Depois de tudo, quando subiu no pódio para receber o bronze, você consegue descrever o que sentiu?
Quando eu ganhei o terceiro lugar, para os brasileiros foi sorte. Alguns disseram que fui sortudo porque o homem que me atingiu me deixou famoso. Todo o mérito de preparação, os vários anos que passei estudando e me preparando foram ignorados. Lembro que, antes da maratona, um locutor brasileiro disse o seguinte quando o vôlei tinha sido campeão: “Agora o Brasil não tem mais nenhuma chance de medalha e encerra sua participação”, e ainda tinha a maratona, eu ainda ia correr. Aqui todos ficaram surpreendidos. E lá foram muita gente que viu o tanto que eu me esforcei por anos me diziam: “você mereceu”. No meu País era sorte e lá fora foi mérito.
O mundo inteiro pode acompanhar um momento marcante para sua carreira e para esporte nacional, que foi quando você acendeu a pira olímpica no Rio 2016. Como foi quando você receber o convite? Apesar de você ter sido um dos nomes mais cogitados, você esperava e acreditava que aquele momento aconteceria?
Na verdade, nem era eu que iria acender a pira. Estava lá como convidado para ser o porta bandeira do juramento dos atletas. Acabei sendo agraciado pelo COI (Comitê Olímpico Internacional), por que o Comitê Brasileiro tinha escolhido outra pessoa. Anteriormente, seria o Pelé e por questões de saúde ou comercial, não sei direito, na véspera da cerimônia o Pelé ainda não tinha confirmado sua presença, ele só daria o veredicto no dia da abertura, depois do meio-dia. Quando faltavam menos de duas horas para o início da celebração, uma pessoa do COI me chamou e me explicou a situação, dizendo de que eu deveria manter em sigilo, mas que eu iria acender a pira. Aceitei de imediato, mas levaram uns 10 minutos para a ficha realmente cair, do que estava prestes a acontecer. Tão poucos atletas no mundo que puderam viver esse momento e isso foi pesando e fui vendo a imensidão de tudo isso. Não era eu, mas mais uma vez os deuses do Olimpo e Deus que conspiraram a meu favor.
Qual a sensação que você teve na hora da abertura? Como foi?
Não sei descrever a sensação. Assim que me comunicaram, o diretor dos jogos veio até mim e disse que precisaríamos ensaiar. E aí ficamos pensando como eu entraria no Ginásio sem ninguém me ver. Pegamos uma jaqueta que cabia dois de mim, um chapéu de pano e um óculos, e entrei no ginásio, ensaiei todo o circuito disfarçado, sem ninguém saber que era eu. Quando foi chegando o momento, fui ficando nervoso, ninguém sabia que era eu, entrei escondido no meio de atletas grandões, como Tande, Hortência, Joaquim Cruz, Guga, entre outros, e cada um deles fez sua participação. Recebi a tocha das mãos da Hortência, quando vi aquela escada enorme, eu estava muito sereno, muito concentrado e hiperfeliz. Mas cada degrau daquela escada, foi como relembrar cada degrau da minha carreira. Fui pensando que tudo que passei na vida, contando cada degrau da minha carreira, me levou até lá.
Você é o único latino-americano a receber a medalha Pierre de Coubertin, que é uma condecoração que o comitê Olímpico Internacional oferece para atletas que têm um alto grau de esportividade e espírito olímpico. O que significou para você essa honraria?
Bom, eu nunca me preparei para ganhar essa honraria no esporte mundial e ninguém pode se preparar para isso. Acredito que isso tenha acontecido não apenas pelo episódio em Atenas, como também por toda a minha trajetória. Receber a maior honraria dos Jogos Olímpicos é consequência de atitudes, valores e comportamento que você tem durante toda uma carreira. Foi a forma de lidar com as situações que me fizeram ser escolhido.
Como foi tomar a decisão de parar?
Retirei-me do esporte há nove anos e foi uma saída planejada. Eu poderia ter ficado um pouco mais, mas preferi encerrar a carreira em uma das melhores fases que tive, deixando a imagem de um atleta vencedor. Sempre achei que a última imagem é a que fica.
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