Quando adolescente, eu trabalhei muitos anos numa loja de roupas esportivas. Um dia, passou por lá uma senhora cega que queria comprar um maiô e calhou de ser eu a atendente. Ela experimentou três modelos e ficou em dúvida entre dois. Estendeu as peças pretendidas sobre o balcão e me perguntou qual era a cor deles: um preto, outro verde. “Verde?!”, ela se surpreendeu. “Engraçado”, ela disse, “tem a mesma temperatura do preto”. E insistiu: “É verde bem escuro?”. Sim, era verde oliva. A temperatura dita a tonalidade da cor.
Então, seria uma questão de temperatura a profusão de hortaliças e frutas verdolengas dessa época? Nosso outono, que é a antecâmara de um frio ameno e inaderente, nos oferece uma fertilidade requintada de hortaliças e frutas, que, se podem estar um degrau abaixo no entusiasmo, esbanjam potência e elegância. Não falo de possibilidades, nossos varejões oferecem a paleta completa de cores o ano inteiro. Estou a comentar a espontaneidade.
Por exemplo, o mangostão, por fora, casca roxo profundo, por dentro, um algodão em flor, suculento, com ótimo sabor e formato encantador. O abacate, verde ou roxo, pede paciência, porque abacate é lento. Temporâneo, a talhada dá grande prazer, a carne verde pistache imaculada e tenra desafia o espírito ao lamento ou à tentação da corrupção, dependendo do caráter. É melhor comer no dia que se parte, ele não se conserva bem em lugar nenhum, já tentei de tudo. Nada difícil, pois o abacate é boa companhia da salada ao doce.
O espinafre, cuja caricatura nos chegou antes dele, ainda coloca medo em muita gente, bobagem! Pode-se comê-lo cru, picado numa salada bem azeda com um nadinha de óleo de alho. Ou fazê-lo suar numa panela em fogo baixo, com apenas uma colher de sopa de água e algum sal, depois espremer, picar e refogar numa generosa quantidade de cebolas transparentes pela ação da manteiga ou azeite e pimenta do reino. É tempo também do kiwi, do agrião, da ervilha torta, da graviola, do figo, além das bananas nanica e maçã.
Sonhamos um outono que não nos pertence, acumulamos imagens que estão a nos contar como é o outono em outro lugar - e o nosso, desprezado, porque é fraco. Mas com boa vontade podemos dizer que as noites começam a trazer uma aragem gostosa, que as manhãs adiam um pouco a voluptuosa explosão do nosso sol tão familiar, que os pelos dos gatos estão mais espessos. E nas fazendas agroflorestais é tempo do plantio não comercial de espécies que servirão para proteger o solo, segurar a água e propiciar a adubação verde.
Temperança, parece ser a ideia lançada pelo outono, ainda que nos trópicos.
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