Cinco dias após provocar o acidente que matou o próprio amigo, o motorista Marcos Antônio Valin, 44, se apresentou à polícia. No começo da tarde de ontem, ele foi à sede do 2º Distrito Policial e deu sua versão para os fatos. Admitiu ter bebido, estar com a habilitação suspensa há sete anos e que trafegou pela contramão. Culpou a escuridão e a suposta falta de sinalização. Foi indiciado por três crimes, mas responderá em liberdade. Saiu escondido da delegacia para não falar com os jornalistas.
O depoimento durou cerca de 40 minutos. Acompanhado do advogado Reginaldo Carvalho, o motorista admitiu que havia tomado “quatro ou cinco latas de cerveja” e mais “três ou quatro romarinhos”. Disse acreditar que não estava embriagado. Alegou que trafegou na contramão da rodovia por uns 15 metros, mas que “se confundiu devido ao escuro da pista, que é mal sinalizada”. Pretendia entrar em uma chácara de prostituição que fica às margens da rodovia.
O motorista também confirmou aos policiais que estava com a habilitação suspensa desde 2011 e que já foi preso por não pagar pensão alimentícia. Disse que, enquanto Júlio, o irmão da vítima que estava com ele no carro, ligava para o resgate, era verificou que o motociclista era Márcio, seu amigo há mais de cinco anos. Disse, ainda, que tentaram socorrer a vítima, mas viram que ele estava muito ferido, certamente, morto.
Ele também declarou que Júlio teria dito a ele que ficaria aguardando o resgate e que ele poderia ir, pois estava muito nervoso. Disse ainda que ficou com medo de alguma reação por parte de Júlio, o irmão da vítima. “Meu cliente disse a verdade, não tem meio termo. Ele era amigo próximo da família, considerado como um irmão. Foi uma fatalidade. Infelizmente, ele está muito abalado e tentou o suicídio. Tivemos que administrar tudo isso para não acontecer mais uma morte, uma tragédia dentro da família”, disse Reginaldo Carvalho.
Marcos foi indiciado por três crimes: homicídio culposo duplamente qualificado, por não ser habilitado e por ter deixado de prestar socorro; afastar-se do local do acidente para fugir de responsabilidade penal ou civil e por dirigir veículo automotor sob efeito de álcool.
“As penas, somadas, atingem oito anos, em caso de condenação. Eu pretendo realizar uma reconstituição do acidente para esclarecer dúvidas. Minha intenção é fazer um inquérito muito bem embasado, com o máximo de informação possível, para que o promotor possa decidir se mantém a nossa tipificação ou se é caso de mudar para dolo eventual num homicídio doloso (quando assume o risco de matar)”, disse o delegado Alan Bazalha Lopes.
Após o depoimento, enquanto o seu advogado saía pela porta da frente da delegacia para despistar os jornalistas, o motorista saiu correndo por um portão lateral e sentou-se no banco do passageiro de uma caminhonete, que arrancou em alta velocidade.
Vítima voltava do trabalho
Marcos Valin era amigo próximo da família de Márcio José Soares, 39, há pelo menos cinco anos. Na véspera do acidente fatal, a mãe da vítima o presenteou com uma correntinha. No domingo, ele foi chamado por Júlio, irmão da vítima, para ajudá-lo a soldar o eixo de uma Saveiro de sua propriedade. Estima que tomaram quatro ou cinco latas de cerveja cada um.
Na sequência, eles seguiram para a chácara da mãe de Márcio e Júlio. Fizeram churrasco, tomaram mais cerveja. Em determinado momento, Marcos chegou de moto e se confraternizou com ele e com o irmão.
No final da tarde, Marcos e Júlio foram resolver um problema na casa da mãe dele, no Jardim Esmeralda. Márcio voltou para a roça onde cuidava de gado, sentido São José da Bela Vista.
Por volta das 19h30, Marcos e Júlio saíram para comprar mais cerveja. A polícia apreendeu uma lata da bebida dentro do carro. Eles pretendiam entrar em uma chácara de prostituição, às margens da rodovia Fábio Talarico. “Ele entrou na contramão e aconteceu essa tragédia. Eu estava mexendo no telefone. Quando reparei que ele estava na contramão, eu falei para ele: ‘Marco, você está na contramão’. Ele falou: ‘Vou ataiar (sic) aqui, é rapidinho, é coisinha à toa’”, disse Júlio.
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