Conheça Odirlei Pessoni, de gari a atleta olímpico


| Tempo de leitura: 4 min
O francano Odirlei Carlos Pessoni, 35, participou de duas Olimpíadas
O francano Odirlei Carlos Pessoni, 35, participou de duas Olimpíadas
A história a seguir comprova que a desigualdade social não pode servir como desculpa. Quando há força de vontade, garra, determinação e muito suor escorrido, as oportunidades aparecem. Qual a chance de um gari, que mora em uma cidade de clima tropical, em que a temperatura beira os 40 graus, virar atleta de alto rendimento e disputar duas Olimpíadas no gelo? Isto, sem dinheiro e sem as mínimas condições de infraestrutura para treinamentos. Difícil, não? O francano Odirlei Carlos Pessoni, 35, quebrou todas as barreiras e mostrou que, sim, é possível.
 
Em 2004, Odirlei trabalhava como coletor de lixo em Franca. Nas horas vagas, gostava de correr e praticar salto em altura. Os patrões perceberam que o funcionário levava jeito para o esporte e decidiram patrociná-lo. Continuou recebendo o salário, mas foi liberado para se dedicar aos treinos.
 
Por conta da resistência e da força física adquiridas de tanto correr atrás do caminhão de lixo, optou pelo Decatlo, prova de atletismo composta de dez modalidades e que visa definir um atleta completo. Foi campeão dos Jogos Abertos, brasileiro, sul americano e ibero-americano. Por vários anos, permaneceu entre os melhores do País. Em 2009, conheceu o bobsled, trenó que desce em pistas de gelo e que pode chegar a 150 km/h. “O atual piloto da nossa equipe, Edson Bindilatti, fazia Decatlo comigo e me convidou para entrar para o bobsled. Topei e fui fazer os testes. Acabei gostando e não sai mais”. Além de atleta, Odirlei é o mecânico do time, da manutenção, arruma e pinta o trenó.
 
Os resultados não demoraram a surgir. Em 2014, a equipe brasileira conseguiu se classificar para os jogos Olímpicos de Inverno disputados em Sóchi, na Rússia. No mês passado, após participar da Copa do Mundo, que serviu como classificatório, ele voltou a integrar o time que disputou os jogos de PyeongChang, na Coreia do Sul, onde passou 27 dias com uma temperatura abaixo de 16 graus. “A sensação de frio deu menos 40, mas, para mim, deu menos 100 (risos)”. O trenó brasileiro chegou na 23ª colocação. Parece ruim, mas não é. “O nível dos competidores foi alto e o Brasil conseguiu sua melhor colocação na história dos jogos. Por apenas quatro décimos de segundos, não ficamos entre os dez melhores. Nossa diferença para o primeiro colocado foi de dois segundos”’.
 
Odirlei conta sobre a sensação de descer ladeira a baixo uma pista de gelo de pelo menos mil metros de extensão e com cerca de 25 curvas. “É uma adrenalina muito intensa. Envolve velocidade, frio, perigo e muita resistência física”, disse ele.
 
Como no Brasil não tem pista de gelo, os atletas só treinam num espaço adequado a partir do mês de setembro, nos Estados Unidos. Nos demais meses, o treino é feito de improviso, em São Paulo. Com habilidade de mecânico e espírito de Professor Pardal, Odirlei construiu uma pista móvel de “push” (arranque) que suporta uma estrutura metálica que simula o trenó de bobsled. É na engenhoca, feita na garagem da casa dele, no parque Progresso, que a equipe se prepara para enfrentar os atletas da elite mundial. 
 
Mesmo com todas as dificuldades e distante das condições adequadas, o esporte possibilitou a Odirlei conhecer mais de dez países. “É enorme a satisfação de sair do nada, de uma origem pobre, e conseguir conhecer o mundo inteiro. Meu sonho era andar de avião e conhecer outro países. O esporte me proporcionou tudo isto, me permitiu conhecer outras culturas e idiomas. Tenho um grande orgulho de minha história e tento passar isto para minhas filhas”.
 
Odirlei recebe apenas a Bolsa Atleta paga pelo Governo Federal, que está atrasada há três meses, e conta com uma ajuda de custo da Larulp, empresa francana do ramo de lingerie. Quando a situação aperta, completa o orçamento fazendo bicos na construção civil. “A dificuldade está para todo mundo. Nada cai do céu. É preciso lutar e persistir. Ser pobre, não quer dizer que você vai virar bandido. Não é preciso roubar, nem passar a perna em ninguém. Se você for honesto e trabalhar, você consegue chegar lá. É o que eu tento passar para a molecada de hoje. Nunca desista dos seus sonhos”. 
 
O atleta precisa de patrocínio. Empresários que se dispuserem a ajudá-lo devem ligar para o número (16) 9 9148 5043.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários