A VÍTIMA DESTA VEZ SOMOS TODOS. VÍTIMAS DA INOPERÂNCIA DE UM ESTADO
Seria apenas mais uma morte no Rio de Janeiro. Aliás, mais duas. Seriam apenas mais duas vítimas das tantas que a guerra instalada na ‘Cidade Maravilhosa’ faz diariamente, e há anos. Mas não. Desta vez mataram uma voz contestadora, mataram uma voz que defendia a cidadania. E mataram justamente para calá-la. A vítima desta vez não foi uma pessoa, uma família, uma comunidade... A vítima desta vez somos todos. Vítimas da inoperância de um Estado - aqui no sentido de Nação - que deixou um governo paralelo dominar um Estado - aqui no sentido de unidade da Federação. No Rio de Janeiro impera ou o poder do tráfico ou o poder da milícia. As mortes da noite de quarta-feira, no Centro da capital fluminense, espantaram, indignaram, revoltaram. A execução bárbara e covarde mobilizou o Brasil, repercutiu no mundo.
A violência não é exclusividade do Rio de Janeiro. A bandidagem amedronta a população brasileira de Norte a Sul, de Leste a Oeste. A ação dos marginais assola todo o País. Seja qual for o grau, seja qual for a motivação, a violência é realidade nos grandes centros e nos mais afastados rincões brasileiros. No Rio, porém, ela é endêmica, tem suas origens ainda na época do Império e é facilitada pela geografia da cidade. A antiga capital da monarquia marginalizou a plebe, jogou os ex-escravos ao nada. Pobres e negros não faziam parte da sociedade. Foi no morro que os cidadãos brasileiros marginalizados encontraram morada.
Décadas depois, as favelas - comunidades, no eufemismo imperante nos dias atuais - continuaram a ser desprezadas pelos governos constituídos. Lar de trabalhadores - negros e brancos - marginalizados, ignorados pelas autoridades brasileiras. Terreno propício para a instalação do poder paralelo. Primeiro foram os traficantes e, em um segundo momento, paralelamente, as milícias. Os herdeiros dos filhos bastardos do Império e também os bastardos da República viram traficantes e milicianos invadirem seu refúgio, imporem seu poder à força e dominarem o espaço esquecido pelo Estado.
Foi a voz contra essa marginalização que foi calada. Foi a luta contra a discriminação, seja ela de raça, poder aquisitivo, gênero ou orientação sexual, que foi golpeada. Foi golpeada a luta que, de alguma forma e intensidade, todos nós brasileiros enfrentamos dia após dia, seja no Rio de Janeiro, seja em Franca, seja no lugar mais ermo do País. Fomos atingidos de forma abrupta e cruel. Acordamos para a realidade que insistíamos em ocultar. A violência é nossa. O preconceito é nosso. A discriminação é nossa. Que as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes sejam a morte do nosso desdém.
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