'Não quero que nosso trabalho perca a essência jamais'


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Uma drama pessoal que acabou se transformando no seu mais intenso sonho de viver. Foi assim que a assistente social Eliane Aparecida Bonine de Melo, de 50 anos, classificou o nascimento do Iansa (Instituto de Apoio Nossa Senhora Aparecida), casa de apoio que oferece auxílio para milhares de pacientes que frequentam o Hospital do Câncer de Franca. Fundado em 2011 - um ano após Eliane descobrir um câncer de mama -, o instituto é hoje uma referência para os pacientes de Franca e também de cidades da região que passam por atendimento diariamente no hospital.
 
Com duas unidades, uma no Jardim do Éden, a apenas 100 metros de distância do Hospital do Câncer, e outra no bairro São José, o Iansa oferece hospedagem para pacientes e acompanhantes, além de café da manhã, almoço e lanche. Também conta com atendimento psicológico, assistência social, oficinas de peruca, onde são produzidas peças que posteriormente são repassadas para pacientes, e de artesanato, cujas as peças são vendidas para ajudar no custeio da casa de apoio. 
 
Com um público formado 70% de mulheres e 30% de homens, vindos principalmente de Igarapava, Ituverava, Miguelópolis, São Joaquim da Barra, Buritizal, Ipuã, Orlândia e as mineiras Cássia e Ibiraci, além de bairros mais afastados de Franca, o Iansa atende, em média, 1,2 mil pessoas por mês. E, para custear o serviço, mantido exclusivamente por meio de ações e doações, são necessários aproximadamente R$ 20 mil por mês. Agora, além dos custos mensais, a equipe da casa de apoio trabalha para conseguir construir a sede própria.
 
Com muita força de vontade, garra e amor, Eliane é apenas uma entre as diversas mulheres de Franca que se destacam pelo serviço que realizam para o bem dos outros. E, na semana do Dia Internacional da Mulher, celebrado no último dia 8 de março, o Comércio traz um pouco da trajetória dessa francana. 
 
Antes da fundação do Iansa, você também realizou tratamento contra o câncer. Como foi descobrir a doença e depois transformar isso em uma oportunidade de ajudar os outros?
Realizei uma consulta de rotina e, como tinha alguns casos de câncer na família, resolvi pedir para a minha médica uma mamografia, por precaução mesmo, pois tinha menos de 45 anos e não estava ainda na faixa em que o exame era realizado com mais frequência. Fizemos e, antes mesmo do resultado da biópsia que classificaria o câncer, o médico optou pela retirada dos caroços que foram localizados. Eu não conseguia senti-los com o toque, por isso acredito que o que me salvou foi realmente a minha precaução e minha médica aceitar a ideia. Foi extremamente difícil virar e dizer para a minha mãe, que tinha perdido quatro irmãos para essa doença, que eu tinha câncer. Na verdade no início nem falava essa palavra, o choque inicial é sempre muito grande.
 
Como nasceu o Iansa?
Não foi fácil descobrir a doença. Após a cirurgia, fiz 33 sessões de radioterapia, acompanhei de perto muitos pacientes que, assim como eu, passaram pelo momento em que se questionavam “por que comigo?”. Mas, apesar de tudo, sempre tive uma fé muito grande e, depois de apenas um tempo, dessa convivência e de ver a necessidade de quem vinha de longe, ou mesmo de bairros mais distantes, tive a ideia de ajudar as pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu. Foi assim que nasceu o Iansa, acredito que por Deus. Foi um ano analisando tudo, buscando informações do que de fato era importante e quando começamos foi em um trabalho de formiguinha. Meu pai, mãe, irmã, marido, eles que me ajudaram sempre. 
 
Qual a sensação de ver um sonho, que nasceu tão pequeno, com sua família praticamente sozinha abraçando a idéia, chegar onde está hoje?
Hoje temos funcionários, além da minha família que ainda ajuda em tudo e mais de 150 voluntários. Crescemos muito, mas foi bem difícil no início, ninguém nos conhecia, os pacientes tinham receio, mas em um trabalho de formiguinha mesmo, com um paciente que chamou outro, que chamou outro e assim por diante, chegamos até aqui. Com mais de 1,2 mil atendimentos por mês, oferecendo café da manhã, almoço e lanche. Isso sem contar o transporte, que começou em nossos carros particulares e hoje fazemos em veículo do instituto. É muito bom ver a confiança que nos depositam hoje. Em como ajudamos a proporcionar um sorriso. Seja durante uma ação, um bate-papo ou mesmo uma oficina. Aqui essas pessoas, que estão em um momento de vulnerabilidade, encontram apoio, um amigo, uma palavra que pode ajudar muito. Crescemos e tenho um sentimento de imensa gratidão por tudo que já conseguimos construir. E não quero que nosso trabalho perca a essência jamais, aquela lá do início, que é ajudar e ser uma referência mesmo em apoio.
 
Vocês começaram uma grande campanha para conseguir iniciar a construção da sede do instituto. Como funciona?
Sempre contamos com o apoio da população em campanhas mensais para realizar o atendimento. Como disse, não temos qualquer auxílio para esse serviço. No ano passado, quando pensava em alugar outra casa, pois o espaço tem se tornado pequeno para o crescimento dos atendimentos, fomos procurados por um senhor, que prefere se manter anônimo, que nos doou uma área próximo ao hospital para que construíssemos a nossa sede. Foi realmente um dos momentos mais felizes da minha vida. Ele ainda nos cedeu o engenheiro, que montou o projeto e agora esperamos apenas a autorização da Prefeitura para começar a construir. Com esse desejo, de ter a nossa sede, focamos em campanhas especiais. Serão quatro durante todo o ano. 
 
Como funcionarão essas campanhas?
No ano passado começamos com a Festa das Nações, que foi um sucesso. Não digo de arrecadação, mas de participação, com a estrutura montada e a ideia que conseguimos passar. Agora, neste ano, preparamos quatro grandes eventos. O primeiro acontece agora no dia 6 de abril, com um Jantar Dançante, no Espaço Colonial. Teremos ainda uma grande Festa Junina, em junho; um show, em setembro, e a 2ª edição da Festa das Nações, entre outubro e novembro. 
 
Como os interessados em ajudar podem doar?
Recebemos muitas doações, graças a Deus, seja em dinheiro ou mesmo em material. Por exemplo, recebemos caminhões de tijolos, cimento e outras coisas. Isso me deixa muito feliz, por saber que temos um trabalho que as pessoas sabem que é sério, admiram e querem ajudar. Aqueles que desejarem podem entrar em contato na Unidade I, pelo telefone (16) 3409-2461 ou ainda na Unidade II, pelo 3702-4042. Qualquer quantia ou produto nos ajudará bastante. 
 
O que você falaria para as pessoas que têm vontade de ajudar os outros, mas têm medo de começar?
Sempre digo que meu caminho foi de fato guiado por Deus e ainda tive a sorte de ter uma família abençoada ao meu lado. Em nenhum momento meus pais, irmãs, filhas, marido, ninguém me desencorajou a seguir esse desejo que nasceu no meu coração. Peguei um momento de tristeza e decidi ir em busca de ajudar quem passava pelo mesmo. Hoje tenho orgulho do que construímos, desse trabalho humanizado e que me emociona o tempo todo. Como disse e repito, é gratificante poder proporcionar o sorriso a uma pessoa. Quero seguir ajudando e fazendo o bem até o fim da minha vida. 
 
 
 

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