O Fórum de Franca recebeu, na tarde de ontem, a primeira audiência de um dos casos de maior repercussão nos últimos anos na cidade, o assassinato da comerciante Núbia Ribeiro, que completaria 22 anos na próxima semana. Além de testemunhas de acusação e defesa, bem como policiais civis que trabalharam no caso e familiares dos acusados, o trio acusado do homicídio prestou depoimento.
Durante quatro horas, 19 pessoas foram ouvidas pelo juiz Paulo Sérgio Jorge Filho e questionadas também pelo promotor Odilon Nery Comodaro e pelos advogados de defesa dos três acusados.
Na audiência, Lauany Viodres do Prado responsabilizou o namorado, Leonardo Cantieri, pelo crime. Ela mudou seu depoimento pela terceira vez e, ontem, afirmou que presenciou o momento em que o jovem teria desferido pedradas na cabeça da vítima.
Além de Lauany, Leonardo e Italo Vinícius Neves, o terceiro acusado, foram ouvidos. Eles deram os depoimentos finais e, após assinatura dos termos da audiência, foram escoltados até os presídios onde estão.
Universitária joga a culpa em namorado pelo crime
Lauany Viodres do Prado foi a última pessoa a prestar depoimento ontem. Ela afirmou que Italo Neves não participou efetivamente do homicídio e que Leonardo Cantieri matou Núbia Ribeiro na sua frente.
Aparentando estar tranquila, a estudante de direito disse que ficou no porta-malas do VW Gol do namorado, enquanto Núbia estava junto, porque “Leonardo ficou de esclarecer as coisas entre elas”.
Em dado momento, ela saiu e falou com a comerciante, que teria ficado sem entender o que estava acontecendo. “O Leonardo foi dirigindo pela rodovia Fábio Talarico e, depois, segurou a Núbia. Eu fiquei sem entender e ele me fez assumir a direção do carro. Fomos até uma estrada em Patrocínio Paulista e, lá, o Leonardo arrastou a Núbia. Ele segurou-a pelos pés e foi puxando na estrada de terra, vi ela toda ensanguentada.”
Ainda segundo a acusada, Leonardo gritou para que ela pegasse uma pedra e que “teria de terminar o que começou”. Lauany ainda narrou que viu o namorado pegar uma pedra e golpear a cabeça da vítima, deixando-a no local enquanto dizia “eu mato e morro por você, ninguém vai atrapalhar a gente”.
Na oitiva, a estudante falou que, depois, ela e Leonardo procuraram Italo para pedir ajuda e que este deixou o carro de Núbia na rodovia Nelson Nogueira.
Rafael Sousa Barbosa, advogado de Leonardo, mostrou uma carta que seria de Lauany a Leonardo e questionou a acusada. “Nela, eu só pedi para que ele assumisse o que fez. Não coagi o Leonardo, apenas quis que ele falasse o que havia acontecido”, respondeu a universitária.
Leonardo Cantieri diz que a namorada esfaqueou rival
O primeiro a ser ouvido foi Leonardo Cantieri. Ele contou que atraiu Núbia Ribeiro para seu encontro e que a namorada esfaqueou a vítima enquanto ele dirigia. Disse que sua intenção era estacionar o veículo e colocar as duas frente à frente para conversarem e esclarecerem tudo. “Em dado momento, a Lauany saiu do porta-malas e começou a brigar. Entrou em desespero quando machucou-a, deixando a Núbia sangrar no rosto e desmaiada, e pediu que eu ajudasse.”
Leonardo disse que Lauany disse para irem na casa de Italo, na Vila Raycos. “A Núbia estava respirando e ficou desmaiada no carro. Entrei na casa para lavar a mão, enquanto a Lauany estava conversando com o Italo. Depois, ele disse para entrarmos no carro, porque nos ajudaria. Ficamos na rua de cima da casa dele discutindo, enquanto ele saiu no meu carro.”
Leonardo contou que Italo voltou pouco depois e disse que prestou socorro para a vítima. Depois, o comparsa teria queimado os pertences da comerciante e falado que ficaria com o celular de Núbia. “Ainda falei que poderiam vir atrás de mim, mas ele falou para eu ficar tranquilo.”
Em seguida, teria sugerido para se desfazerem do Civic da vítima. Lauany estaria junto e ido com eles até um posto do Distrito Industrial. “Deixamos Italo em casa e, no dia seguinte, meu pai começou a ligar para saber o que tinha acontecido.”
Mãe de Lauany
Leonardo disse que Jane Viodres esteve na Penitenciária, em dezembro. “Achei estranho, pensei que fosse visita do meu advogado, mas era ela. Fui até a Jane e ela disse que meus defensores estavam me atrapalhando e que ia me ajudaria dentro da cadeia, que não faltaria nada para mim. Mas saiu nervosa e chorando, porque não concordei.”
Italo nega participação no homicídio
O desempregado Italo Vinicius Neves foi o segundo acusado a ser ouvido. Negou qualquer envolvimento com a morte de Núbia Ribeiro.
Aparentando calma, Italo disse que sua única participação no caso foi de deixar o carro de Núbia na rodovia Nelson Nogueira, após o crime. “Eles apareceram lá em casa e o Leonardo com as mãos marcadas, mordidas, dizendo que tinha dado errado. Já a Lauany ficou todo o tempo com luvas.”
Italo disse que, enquanto estavam juntos após abandonar o carro da vítima, questionou Lauany sobre os fatos e a jovem teria dito que havia acontecido um homicídio. “Achei que fosse um roubo e que uma moto seria deixada na minha casa, mas depois foi o carro. Perguntei o motivo e ela falou que morreu ‘porque tinha que morrer’.”
Italo afirmou ainda que, quando foram ao apartamento do casal, Leonardo e Lauany trocaram de roupa. “Depois, fomos ao posto e me levaram na Vila São Sebastião. Fui comprar minha droga e eles me levaram em casa. Ali, a Lauany começou a limpar o celular da Núbia e perguntou o que faríamos. Demos o cartão de memória do aparelho para meu primo e eles queimaram todo o resto.”
‘Não consegui acreditar que minha filha estaria nisso’
A advogada Jane Viodres, mãe de Lauany, afirmou à Justiça que sentiu angústia e desespero diante da suspeita de que a filha estaria envolvida no crime. Em seu depoimento, aparentando nervosismo, Jane detalhes da relação da filha com Leonardo. “Fumava muita maconha e tomava uísque, e acho que deveria ser avaliado por um psiquiatra.”
Jane disse que, nas visitas à filha no presídio de Mogi Guaçu, Lauany foi revelando detalhes do dia do crime. “Jurou inocência e que Leonardo tinha dito que elas conversariam para esclarecer toda a relação.”
Ainda segundo Jane, a filha não participou do crime e isso seria fruto de um “distúrbio psicológico de Leonardo”. Ela também contou que visitou Leonardo na penitenciária “porque gostava dele e como advogada”.
O promotor Odilon Comodaro questionou a última fala de Jane. “Não sendo parente, teria de entrar como advogada do preso na Penitenciária de Franca. A senhora disse que era defensora do réu ou entrou indevidamente?” Jane titubeou e afirmou que ninguém perguntou se ela era ou não advogada de Leonardo e “simplesmente entrou”. Este fato deve ser apurado.
‘Meu filho não mataria sequer uma barata’
O pai de Leonardo Gonçalves Cantieri, João Roberto Cantieri, foi a primeira testemunha a ser ouvida na audiência sobre a morte de Núbia Ribeiro.
Segundo o pai do acusado, Leonardo era um filho carinhoso e que nunca deu trabalho. Mas, aos 16 anos, se envolveu com drogas, utilizando maconha. Ele afirmou que Leonardo ficou em uma clínica de reabilitação por nove meses e, quando a situação se normalizou, ele foi morar com os avós para cuidar do avô, que estava doente.
Porém, as coisas teriam mudado quando Leonardo se envolveu com Lauany. “Ela era uma moça estranha, não era comunicativa e mal nos cumprimentava. Sequer olhava em nossos olhos. Nunca aprovei esse relacionamento e avisei o Leonardo, mas não adiantou.”
João Roberto contou que o casal foi morar com o pai da acusada e que eles perderam o controle. O filho teria até se afastado dos pais. Quando romperam uma vez, Leonardo conheceu Núbia, que foi até jantar na casa dos pais do acusado. “A partir disso, a Lauany começou a pegar no pé deles”, disse.
O pai disse também que o filho era tranquilo, nunca agrediu Lauany e jura inocência. “Meu filho não mataria sequer uma barata.”
‘Nem acreditamos que fizeram isso. Surpreendeu a todos nós’
Primo de Italo Neves, Wemerson da Silva foi uma das testemunhas ouvidas. Contou que Lauany Prado estava usando luvas e limpando um aparelho celular.
Segundo Wemerson, o celular da vítima ficou com o primo e ele chegou a ver fotos dela. Na noite do crime, o casal teria dito que cometeu um roubo e só soube do caso envolvendo Núbia quando assistiu à reportagem do desaparecimento da vítima na televisão.
Disse que o irmão de Lauany fez contato com Italo por telefone, mesmo estando preso, e pediu ajuda para “queimar algumas coisas” que poderiam ser os pertences de Núbia. “Eles mentiram para todos nós, até pro irmão, pois disseram que tinham ido cometer um roubo, mas na verdade era esse crime. Nem nós acreditamos que fizeram isso. Surpreendeu a todos nós.”
A irmã de Italo, Michelen Crislaine Neves, também foi ouvida. Além de afirmar que estava na casa do irmão, na Vila Raycos, no dia da morte da comerciante, confirmou que Leonardo Cantieri e Lauany foram ao banheiro para lavar as mãos.
“Ela estava usando luvas de borracha e entregou o celular da Núbia para meu irmão.”
Mãe da vítima
Entre as testemunhas ouvidas ontem, estava a comerciante Tânia Ribeiro, mãe de Núbia. Tentando conter a emoção, falou sobre os últimos momentos com a filha.
Enquanto Tânia contava o último momento em que viu Núbia e soube que ela não havia voltado para casa, na manhã do dia 25 de setembro, Leonardo, que tinha envolvimento com a vítima e seria o pivô do crime, ficou com expressão de tristeza.
Além de abaixar a cabeça, o acusado de envolvimento na morte de Núbia balançou-a negativamente. Já Lauany e Italo permaneceram olhando para o juiz e não esboçaram qualquer reação.
Justiça decide se trio vai a júri popular
Depois da audiência, realizada ontem, Lauany Prado viajou sob escolta cerca de 260 km de volta para o presídio feminino de Mogi Guaçu, onde está presa desde 31 de outubro. Leonardo Cantieri e Italo Neves foram escoltados até a Penitenciária de Franca, onde devem permanecer presos até o julgamento.
Com o fim das oitivas, a Justiça deve decidir, nos próximos dias, se haverá a pronúncia do trio acusado por homicídio qualificado.
A partir disso, será determinado se Italo, Lauany e Leonardo irão a júri popular ou não. Seus advogados de defesa, assim que sair a decisão, têm um prazo para recorrer e tentar desqualificar o crime - para outras naturezas - e apresentar seus argumentos. Não há prazo estipulado para isso.
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